O baiano, que também era designer, será homenageado por expositores e ganhará reedição das peças criadas nos anos 1940 e 50

Expoente da arquitetura e do design nacional, José Zanine Caldas (1919-2001) completaria 100 anos em 25 de abril. A data comemorativa despertou interesse de galerias, fábrica de móveis e lojas vintage para valorizar o legado do mestre. Nessa edição da feira de arte e design, ele será lembrado por várias marcas, a começar pela Etel, que reedita 20 peças do acervo da fábrica Móveis Artísticos Z, fundada por Caldas no final dos anos 1940, em São José dos Campos, no interior de São Paulo.

Caldas criou peças modulares de compensado naval para os apartamentos que surgiam em tamanhos menores do que o convencional. A linha, composta por mesas, espreguiçadeiras, poltronas e cadeiras, tentava aproveitar ao máximo as chapas para não ter desperdício no processo de industrialização.

Autodidata, Zanine Caldas fez maquetes no início da carreira para os principais arquitetos modernos do país.

Em formatos sinuosos na maioria das vezes, esses móveis voltam a ser produzidos pela marca Etel na coleção (R)evolução Zanine: uma estória por Etel, com lançamento dos itens de compensado e também dos fabricados com ferro dobrado. “Fizemos uma grande pesquisa até chegar a essa seleção. Os exemplares serão confeccionados de madeira maciça num acabamento impecável e forrados com tecidos nacionais e italianos”, conta Lissa Carmona, CEO da empresa, que depois levará a coleção para a Semana de Design de Milão.

A loja Teo, especializada em mobiliário vintage, dedica seu espaço na feira aos móveis originais da linha Z. “Temos peças que vão de 1949 a 1957, todas com selos da época: poltronas, mesas, um bar, uma estante e até um sofá-cama, que foram restaurados sem esconder os sinais do tempo”, conta Frederico Concilio, diretor criativo da marca.

Nos anos 1970, a mobília de Caldas toma outro rumo quando ele se muda para Nova Viçosa. Incomodado com as queimadas que matavam diversas espécies nativas, ele começa a executar o que chamaria de Móveis Denúncia. “Ao ver aquelas madeiras imensas serem queimadas e jogadas fora, eu a transformo em móvel, nas dimensões naturais”, disse certa vez em entrevista, como consta no documentário “Zanine, ser do arquitetar”, do diretor André Horta, lançado em 2016.

Uma mesa dessa fase estará exposta no Apartamento 61 e outra no espaço “Ocupação Zanine”, ambiente que recria a sala do apartamento em Brasília, onde ele viveu na década de 1980. Haverá ainda objetos pessoais: óculos, régua triangular, itens de artesanato, esculturas, além de samambaias, maquetes – Caldas produziu mais de 700 no início da carreira, papeis e até o abajur usado para iluminar os projetos.

Alguns dos modelos do Móveis Artísticos Z reeditados pela Etel. 

O designer Zanini de Zanine, caçula do arquiteto, ajudará na montagem do cenário em parceria com a Etel. “Lembro-me de meu pai debruçado sobre papel milimetrado na mesa de tampo de vidro e base de madeira maciça em formato de canoa. Ele gostava de colocar ali frutas e flores secas”, conta. Antes de o sol nascer, Caldas já rascunhava seus projetos nesse móvel, rodeado por cadeiras Thonet com assento de palhinha. “Ele gostava de tirar proveito do silêncio da madrugada”, diz o filho.

Arquiteto, designer, paisagista, escultor e maquetista, José Zanine Caldas ganha em 2019 a relevância que sempre mereceu e ainda um livro sobre sua obra a ser lançado no segundo semestre pela editora Olhares, em parceria com a galeria norte-americana R&CO, que também prepara uma exposição sobre o mestre. No ano que vem, seu legado conquista sede própria: a casa onde viveu a infância, em Belmonte, será transformada em museu com projeto de Marcio Kogan.

Teo dedica seu estande para o mobiliário criado pelo designer baiano nos anos 1940 e 50.