Arquiteto baiano, que completaria 101 anos em 25 de abril, terá croquis, fotos e maquetes num dos mais importantes centros culturais da Europa

Cinco maquetes de casas, 15 croquis, dezenas de fotos e uma poltrona da década de 1950, doada pela família de Zanine Caldas (1919-2001), integrarão o acervo do Centro Georges Pompidou, em Paris. “Algumas peças já deveriam ter sido despachadas, mas, com a pandemia, adiamos a entrega”, afirmou Zanini de Zanine, filho caçula de um dos mais renomados arquitetos e designers brasileiros. A aquisição do museu parisiense soma-se a uma série de acontecimentos que homenagearam Zanine Caldas em seu centenário, celebrado em 2019. Um desses feitos foi a publicação do livro José Zanine Caldas, editado pela Olhares em parceria com a R&Company, galeria de Nova York. Desse registro bilíngue – o mais amplo documento realizado sobre o trabalho do ilustre baiano, destacamos aqui a Casa Cruz, construída na Joatinga, bairro no Rio de Janeiro. Convidamos você também a ouvir os podcasts que preparamos por ocasião desse lançamento.

André Nazareth

Casa Cruz, de 1976, é uma das 12 construções apresentadas no capítulo Arquitetura de José Zanine Caldas, dos autores Amanda Beatriz Palma de Carvalho, Lauro Cavalcanti e Maria Cecília Loschiavo dos Santos. O fotógrafo André Nazareth assina o ensaio, feito em diferentes cidades brasileiras. Abaixo as imagens da casa e o textos publicados no livro.

“Os elementos de reuso – comumente aproveitados por Zanine em seus projetos de arquitetura – ganham particular expressividade nesta casa, e suas procedências demonstram o afinco do arquiteto em buscar a diferenciação dos projetos a partir desses componentes únicos. O portão da entrada pertencia a uma igreja inundada por uma barragem na Bahia. O piso de ardósia foi trazido de uma antiga fazenda no Piauí – e escolhido e adquirido pelos futuros proprietários da casa em um depósito de materiais de demolição mantido por Zanine na própria Joatinga, onde executava várias obras no período. Escuro e áspero, ele estabelece um diálogo visual e tátil com os corrimões das escadas em madeira talhada à mão, provenientes da oficina de Zanine em Nova Viçosa. Projetada para abrigar três núcleos da mesma família, com pés-direitos elevados, perspectivas entre pavimentos e recursos visuais surpreendentes, a casa evidencia um pensamento construtivo pautado pela fruição sensorial do espaço, que passa necessariamente pela relação com a natureza e seu entorno.”

Sobre Zanine Caldas

“José Zanine Caldas (1919-2001) nos legou uma obra extensa e diversa, com contribuições na arquitetura, no design e na arte. Sua produção incluiu maquetes desenvolvidas para a arquitetura moderna, mobiliário industrial e artesanal, esculturas, paisagismo e floricultura, projetos para moradia popular e de elite e pesquisas sobre o uso e reuso da madeira brasileira. A abordagem inventiva e particular que tornou Zanine um dos mais importantes nomes da cultura material brasileira no século XX teve como traço comum os diálogos com a produção vernacular e com a prática construtiva, de certa forma resultantes da ausência de uma formação profissional tradicional. Como o próprio Zanine frisava, seu título era de ‘notório fazer’.”

Por Otávio Nazareth e Mina W. Hugerth, no livro José Zanine Caldas, editado pela Olhares em parceria com a R&Company