Indústria de São Caetano do Sul produziu 1,2 mil frutas para exposição do artista chinês na oca

Iniciais de frutos nativos do Brasil formam a palavra FODA em obra do chinês exposta na Oca, no Parque do Ibirapuera.

Dos mais importantes artistas e ativistas sociais da atualidade, o chinês Ai Weiwei, de 61 anos, ocupará, a partir de sábado (20 de outubro), os 8 mil m² da Oca, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, com a exposição Raiz, a maior de sua carreira.
São obras históricas e inéditas, nascidas da imersão do artista na nossa cultura. Dentre os trabalhos, estão 300 múltiplos compostos por peças de porcelana, brancas ou pintadas, de quatro frutos brasileiros: Fruta do Conde, Ostra, Dendê e Abacaxi, que, com suas iniciais, formam FODA, tradução de FUCK, palavra referência na carreira do artista.
A fábrica Porcelana Teixeira, em São Caetano do Sul, com 75 anos de tradição, foi a responsável por essa produção, coordenado pela designer Rachel Hoshino, que nos conta como se deu essa troca.

“Em março, a equipe da Madai, produtora cultural responsável pela exposição, procurou um ateliê para reproduzir exemplares de frutos nativos em porcelana. Como atuo há 20 anos com design de produto nesse setor, fui indicada ao trabalho. A ideia deles era trazer dois mestres chineses – um modelista e um colorista – para acompanhar a produção e ensinar os artesãos. Um exemplar de um abacate, feito pelo mestre José Teixeira, de 90 anos, dono da empresa, e o artista Miguel Anselmo, no entanto, provou que éramos capazes de assumir a produção sozinhos. Instalamos um ateliê na fábrica e nos lançamos ao desafio de ajustar a delicadeza do material às formas propostas, que sofreram muitas modificações desde a composição química da massa até a retirada das peças do forno. Foram três meses de desenvolvimento, testes e ajustes técnicos e mais três meses de fabricação, reunindo colaborativamente operários e mestres com a equipe de artistas plásticos recrutada por mim. Fizemos os múltiplos assinados pelo artista. São 200 sets brancos e 100 pintados de forma realística, dispostos numa vitrine. Na minha interpretação, a obra remete aos gabinetes de curiosidades europeus do século XVII, nos quais eram reproduzidos itens de fauna e flora em porcelana como forma de registrar e preservar o exótico encontrado nas colônias. Talvez Weiwei queira nos dizer com essa obra que nossa natureza e cultura alimentar está em extinção com o aumento da monocultura e dos alimentos industrializados. Por fim, vejo que esse trabalho deixou um importante legado, devolvendo à Teixeira sua vocação artística, uma vez que seus fundadores portugueses atuaram na Vista Alegre.”

Veja ainda a matéria da Folha de S. Paulo sobre a exposição Raiz, clique aqui

Os sets, apresentados em vitrines como esta, serão comercializados pela galeria ArtEEdições, cuja venda reverterá em financiamento das operações da exposição, curada por Marcello Dantas.

Os frutos – abacaxi, ostra, fruta do conde e dendê – foram pintados de forma realística por artistas que trabalharam no ateliê montado na Porcelanas Teixeira.

Aos 90 anos, José Teixeira, o dono da fábrica, comandou a produção dos múltiplos de Wewei ao lado da designer Rachel Hoshino, coordenadora do projeto.

Depois de irem ao forno as peças receberam acabamento com ponteira de diamante para ganhar aparência idêntica a dos frutos.  

Artistas e operários trocaram saberes durante o desafiador processo de execução dos múltiplos do artista chinês.

O conhecimento dos operários da fábrica foi essencial para verificar como a massa de porcelana se comportava dentro da fôrma.

Fotos coloridas: Alex Bertini

Fotos pb: Patricia Ikeda

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