Estudio Tupi reformou o emblemático edifício paulistano para a marca de persianas

Como mostra a maquete, os arquitetos do Estudio Tupi escolheram o vermelho para a fachada do prédio emblemático de concreto armado na av. Cidade Jardim, em São Paulo. 

Construído em 1987 na av. Cidade Jardim, em São Paulo, para sediar a loja de móveis Forma, cujas coleções detinham peças dos principais designers do século 20, o volume suspenso de concreto armado com assinatura do prêmio Pritzker Paulo Mendes da Rocha poderia ter se transformado num salão de beleza ou numa unidade da rede de restaurantes Coco Bambu. Quiseram, porém, os deuses da arquitetura que o local caísse nas mãos de uma turma com sensibilidade aguçada para revitalizar a obra moderna sem intervenções drásticas.

A reforma comandada pelo Estúdio Tupi, o mesmo da loja NK Store, na Rua Sarandi, recebeu críticas de alguns arquitetos puristas, mas o fato é que o patrimônio paulistano, fechado por mais de dois anos, rejuvenesceu com novas instalações elétricas e hidráulicas, projeto de iluminação do lighting designer Carlos Fortes e elementos tingidos de vermelho, que podem ser facilmente eliminados. O trio do Tupi, composto por Aldo Urbinati, Andrea Bazarian e Rafael Ayres, incorporou ainda o cinza na paleta para as peças de mostruário – que, além de persianas e cortinas, inclui móveis e luminárias de outras empresas – e o branco para indicar a arquitetura original. No evento de inauguração dedicado à imprensa, em 4 de fevereiro, gravamos entrevistas com os principais personagens dessa história, transformada no livro “Mea Culpa – como fizemos para reformar a Forma de Paulo Archias Mendes da Rocha”, escrito por Aldo, o líder do estúdio. Confira o que disseram alguns dos protagonistas desse novo ponto de decoração da capital paulista e assista também o vídeo com o bem-humorado relato de Aldo sobre esse desafio.

“Imagine reformar um prédio que é pura arquitetura. O que você vai fazer? Ligar para o Paulo Mendes da Rocha? Claro que não! Queria ter um diálogo genuíno com o grande arquiteto. Se eu ligasse pra ele, acabava o diálogo. Espero que ele se divirta com o que fizemos aqui, talvez ele se chateie…”

“Conheci o Paulo Mendes da Rocha no final dos anos 1990 quando eu era estagiário da Fundação Villa Nova Artigas, que funcionava no mesmo andar do prédio do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), onde também fica o escritório do Paulo. Pela amizade e proximidade, tive a oportunidade de ajudar na catalogação de desenhos das primeiras publicações feitas para ele. Foi um encontro muito proveitoso e essas memórias certamente estão contidas no projeto.”

“Estou ansioso e angustiado com essa inauguração. A gente nunca sabe se fez a coisa como deveria ser feita. Essa reforma significou, para mim, um confronto com o objeto intelectual sólido, algo que exige respeito, admiração, coragem, audácia e estudo da arquitetura, coisas pelas quais sou apaixonado.”

Aldo Urbinati, sócio do Estudio Tupi

“Sempre atuei no mercado corporativo com a Uniflex, além de ter uma empresa de móveis corporativos. Resolvi também investir em uma de automação e outra de iluminação. Estava procurando um local para abrigar nosso escritório e passava na frente deste prédio todos os dias e via a placa de ‘aluga-se’. Achava um desperdício ver ele vazio e sucateado, até que consegui fechar o negócio. O prédio se mostrou perfeito para reunir todas as marcas e nosso escritório. Chamei o Aldo para projetar a reforma, pois ele é meu cliente há bastante tempo e fizemos juntos algumas obras, como a da NK Store. Foi uma conversa fluida porque sou arquiteto de formação e trabalhei quinze anos no mercado corporativo, entendo muito bem desse negócio. Pretendo também aproveitar esse espaço para fazer eventos, palestras e exposições.”

Mario Rudge, proprietário da unidade Uniflex Cidade Jardim

“A principal missão aqui foi conseguir dotar a nova loja de um sistema atual de iluminação que atendesse ao programa da Uniflex, mantendo o diálogo com o edifício. Coincidentemente, quando comecei a trabalhar com iluminação há 30 anos no escritório da Esther Stiller e do Gilberto Franco, estávamos fazendo o projeto de iluminação da loja Forma. Comecei minha vida profissional com esse projeto. O conceito original, tanto da iluminação como dos acabamentos e dos elementos internos não eram arquitetura pura, mas, sim, sistemas sobrepostos à arquitetura, ou seja, o teto era de grades penduradas, paredes eram grades sobrepostas, por isso, seguindo o conceito do Aldo de que as interferências fossem visíveis, a gente também procurou manter a mesma linguagem na iluminação.”

Carlos Fortes, lighting designer