Espelho criado nos anos 1960 conquista protagonismo na galeria Luciana Caravello, em Ipanema

O objeto inédito, produzido agora pela marca Sergio Rodrigues Atelier, foi desenhado pelo mestre carioca para a Oca, loja galeria de sua propriedade que agitou a cena cultural do Rio de Janeiro nos anos 1960. Batizado Dragãozinho, o espelho de traço muito simples tem edição limitada a 30 exemplares, fabricados em seis tipos de madeira: jacarandá, mogno, conduru, peroba do campo e peroba-rosa. Na Galeria Luciana Caravello até 13 de abril, a instalação com todos os modelos convida a refletir sobre a imagem que fazemos de nós mesmos, tema abordado pelo arquiteto e designer na crônica “O espelho do Dragãozinho”, escrita por ele para a revista Senhor, em 1963. No texto, Sergio aparece como se fosse o “dragãozinho” na borda do espelho, nos corredores da casa com aparência de castelo onde cresceu no Flamengo, vizinho de fundos ao Palácio do Catete. Com curadoria do crítico de arte Afonso Luz, a mostra disponibiliza ainda documentos cedidos pelo Instituto Sergio Rodrigues, como o catálogo original da Oca com o croqui da peça; o número 49 da revista Senhor; e o próprio Dragãozinho – entalhado em madeira e presente na infância de Sergio nos anos 1930. Abaixo, vale ler trechos da reflexão feita pelo curador sobre o tema da mostra.

“Sergio foi uma criança que cresceu sem conhecer seu pai, um homem cuja vida tinha uma ausência como retrato de família. Talvez passasse pela vida sem fixar na moldura a parte de si mesmo que o tempo lhe roubou. Talvez daí o amor pela caricatura, o maior legado paterno, o que lhe permitia desenhar com linhas tragicômicas seu destino, o que gostaria de ter sido de maneira burlesca, num mundo imaginário que encontrava nos mergulhos pelo espelho.”

“Irônico do espelho é o fato de que Sergio nunca padeceu do narcisismo, endêmico no ambiente da arquitetura moderna em que se formou. Muito pelo contrário, zombeteiro e cômico, vivia a desmontar o nacionalismo ou o egocentrismo que o rondavam; e para si carinhosamente cultivava a modéstia, algo até desproporcional se considerarmos a importância de sua obra.”

“Na vertigem da sociedade de massas, hoje em versão 3.0 – no pós-pós-moderno, novo milênio – talvez o espelho seja abandonado para a história da arte, como tantos dispositivos da imagem que nos capturaram no passado. Mergulhados na atualidade de nova revolução sensível, emoldurados em telefones celulares e superfícies de cristal líquido, tudo é registrado em tempo real nas microcâmeras. Revelação imediata de quem somos, onde estamos, como sentimos e vestimos, instaura-se o espelhamento da sociedade numa cultura selfie. A sensibilidade do nosso self é a que se consuma em universo paralelo, lá desempenhamos fantasias reais e a vida imaginária processa autoidentificação. Como que engolidos pelo grande espelho virtual, nossas paixões só se dão neste fake environment, sem nos importar como realmente somos, pois tudo há de ser corrigido, manipulado, editado, até sobrar aquilo que buscamos ser desmedidamente como imagem.”

Fotos: Divulgação