O designer participou do projeto Origine-SE para criar produtos que exaltem a identidade do estado

A tapeçaria Canindé, feita de algodão, foi produzida em Sergipe com inspiração na iconografia do Rio São Francisco.

“É sempre um desafio, pois as pessoas têm muita resistência em fazer diferente”, diz Sergio J. Matos, designer mato-grossense radicado na Paraíba, ao relatar a experiência vivenciada em Sergipe, sob a coordenação do Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inovação (IPTI) junto à secretaria de Turismo. Depois da grande repercussão na imprensa sobre o trabalho desenvolvido com os povos indígenas do Amazonas, ele orientou artesãos no desenvolvimento de peças que se identifiquem com as tradições do estado e possam ser consumidas não só por turistas como por importantes lojas do país. “A essência do trabalho é buscar a originalidade pautada nas referências locais”, afirma Renata Piazzalunga, do IPTI.

Além de Sérgio, o designer Kelley White participou do projeto Origine-SE, que abrangeu seis municípios com diferentes expertises. Ao mato-grossense coube Santana de São Francisco, um pólo cerâmico, Poço Redondo, com renda de bilro e couro, e Canindé, sem técnica específica. Nesse último local, Sérgio estimulou o grupo de artesãos a produzirem tapetes de algodão. “A paisagem e as cores do Rio São Francisco me ajudaram a conceber essa linha feita à mão, que iniciou com tapetes e virou tapeçaria por causa de sua delicadeza”, conta ele.

Em Santana do São Francisco, Sérgio teve dificuldade de encontrar quem quisesse moldar a argila com formas diferentes das já encontradas na cidade. “Apenas três artesãos toparam o desafio, mas eles me surpreenderam com o capricho e o empenho na confecção dos vasos.” Dentre os modelos, a forma do caju, símbolo de Sergipe, as de animais, como o burro, o carcará, o cachorro e a galinha de angola, além de peças maiores inspiradas nas emas.

Por fim, em Poço Redondo, Sérgio trabalhou a renda de bilro, em bolsas e sousplat, e o couro. “Era para eu interagir com o mestre coureiro do município, mas ele não quis e acabei fazendo as luminárias com o filho dele. As costuras são as mesmas das selas de cavalo e das roupas do cangaço”, conta Sérgio. “No Nordeste, eu me sinto mais livre para experimentar técnicas, diferentemente da Amazônia em que há uma preocupação grande em respeitar os costumes de cada etnia.” Os artesãos de Sergipe já sentem no bolso o resultado positivo das oficinas. “Vasos de cerâmica que eram vendidos a 10 reais agora, com os novos modelos, ultrapassam os 100 reais”, afirma Renata.

Sob a supervisão de Sérgio, artesãos de três municípios criaram linhas de vasos, luminária, entre outras.