Arquitetos, empresários e jornalistas contam quais foram as atrações marcantes do 58º Salão do Móvel e dos eventos do Fuori Salone

Que memórias você guardará da Semana de Design de Milão 2019? Fizemos essa pergunta a profissionais do universo do décor que visitaram e fotografaram os principais eventos na cidade italiana. Apontamos as melhores atrações desta edição, que será lembrada pelo uso das cores, pelas diversas exposições com o tema sustentabilidade, pela sinergia entre tecnologia e artesanato e pela expressiva participação do design brasileiro. Na foto acima, a instalação Sleeping Piles (Torres Dormindo), dos irmãos Campana para a exposição Human Spaces, organizada pela Interni, na Universidade de Milão.

Cores por todos os lados

“Eu vi uma Milão mais colorida. Na Gucci Décor, loja pop-up na via della Spiga, fiquei impressionada com o jogo de tons e os lançamentos. Tinham almofadas feitas com needle point, uma antiga técnica de bordado muito em voga. A instalação Black Cloud, do mexicano Carlos Amorales, na Fundação Adolfo Pini, me comoveu. O palácio inteiro foi coberto com milhares de borboletas de papel preto, fazendo referência a migração anual delas do Canadá para o México. Na Universidade de Milão, a instalação Help desenhava a palavra inglesa com centenas de tampinhas plásticas, trazendo à tona o tema da sustentabilidade, tão pertinente nos dias atuais.”

Tamar Paiva, relações públicas das marcas Entreposto e Trousseau

“A volta do uso de cores foi o que mais chamou minha atenção. A Vitra apresentou cores fortes em um dos ambientes, o do Colecionador de Móveis de Design, que de certa forma revela uma tendência. Também mostramos parte de nossa paleta por meio das cadeiras. Eram muitas cores! Paola Lenti abusou dos tons, com ambientes de cores frias, quentes e muito verde.”

Lucia Susuki, diretora no Brasil da marca de móveis Vitra

O glamour das marcas de luxo

“Moda e decoração definitivamente caminharam juntas neste ano. Já tínhamos a Louis Vuiton Home e a Hermès Home, dessa vez, a Gucci inaugurou seu segmento home, com uma loja maravilhosa. Já o Salão do Móvel se mostrou fortalecido: nunca vi tanta gente na feira. Gente comprando, o que pode ser um indício de economia aquecida. Gostei muito também da participação do Brasil. As instalações do Be Brasil, no Palácio della Permanente, estavam muito bem montadas. Na Universidade de Milão, a instalação dos Campana emocionava. Eles continuam se superando ano após ano. Destaco também a instalação Aqua, no bairro Brera, que homenageava os 500 anos de Leonaro da Vinci.”

Angelo Derenze, diretor-geral do D&D Shopping

“As grandes marcas fashion continuam fazendo bonito. A coleção Objets Nomades, da Louis Vuitton, está melhor a cada ano. O destaque, claro, foi os irmãos Campana. A Versace mostrou uma ambientação onírica muito interessante, apesar de os móveis não me agradarem. Hermès, Gucci, Armani… ficou claro que essas marcas entraram de vez para o universo da casa. Não são produtos de massa, têm pouca tiragem e são caríssimos, mas contribuem para o bom design. A Cassina, na via Durini, estava belíssima. Patricia Urquiola, diretora de arte da empresa, acertou na paleta de cores, usando tons saturados: vermelho, azul, amarelo. O showroom foi o melhor do Fuori Salone na minha opinião. Nendo e Dimore também chamaram minha atenção.”

Pedro Ariel, diretor de relacionamento da Casa Cor

“Destaco os trabalhos artesanais de Shizu Okino expostos na marca espanhola Loewe com resgate de técnicas japonesas; os de Arno Declercq, designer belga de extrema personalidade que também trabalha com a técnica de carbonização japonesa; a criatividade e o show de competência em trabalhar com cores de Paola Lenti; e a Flos que conseguiu reinventar a iluminação com um time de designers incríveis.”

Isabelle de Mari, arquiteta e dona da marca de móveis Olho

Sustentabilidade, um assunto que não sai de pauta

“O espaço que a discussão sobre materiais reutilizados ou de matérias-primas alternativas recebeu foi o que mais me surpreendeu. A questão do plástico esteve em projetos de estudantes, no trabalho de jovens designers e no de nomes famosos, na fabricação de grandes players do mercado e em instalações espalhadas pela cidade. Gente testando e criando com descarte de leite, lava, alga, além das garrafinhas e sacolas plásticas. Gostei particularmente dos expositores da Ventura Future e da Alcova, que reuniram peças muito bonitas, funcionais e ainda com boas histórias envolvendo seus processos. Animador!”

Michele Oliveira, jornalista freelancer, residente em Milão

“A iniciativa de um design cíclico ficará marcada na minha memória. O mundo do design tem buscado há muitos anos novas formas de consumo, novas formas de se posicionar frente ao desgaste desenfreado dos recursos naturais, mas sempre foram resultados pouco expressivos ou com cara de reciclado, sustentável. O novo caminho aponta para o reuso de materiais sem parecer reuso, o que eu chamo de design cíclico. Na mostra Waste no More, na galeria de Rossana Orlandi, peças e fibras de tecido foram transformadas em belas obras de arte. Destaco também a exposição da marca de roupa Cos.”

Nildo José, arquiteto

“Com curadoria de Lidewij Edelkoord e Philip Fimmano, o projeto Waste no More enfoca o trabalho da fashion designer norte-americana Eileen Fisher, que busca desperdício zero em suas criações. Eileen tem a política de recomprar as roupas de seus clientes e vendê-las em sua própria loja, numa área dedicada às roupas de ‘segunda mão’. Quando as peças não estão em perfeitas condições, a estilista utiliza parte delas para criar montagens que dão origem a novas vestimentas – esta seria a ‘segunda vida’ das roupas. E quando nem isso é possível, elas se transformam em matéria-prima para a criação de um tecido feltrado – sempre com tonalidades naturais, já que as roupas criadas por Eileen são sempre orgânicas e utilizam somente tingimento natural. A mostra no Spazio Rossana Orlandi ilustrava esse processo para enfim destacar o centro das atenções: belíssimos painéis acústicos feitos com essa técnica de feltragem, ostentando desenhos de viés geométrico ou com inspiração mais natural (folhas, por exemplo), com efeito tão suave e delicado que remetia a uma aquarela. Sustentabilidade, beleza e poesia andando juntas. Destaco também, na mesma galeria, a coleção de vasos de porcelana do espanhol Alvaro Catalán de Ocón envolvidos por uma malha de fios de cobre (Alvaro projetou uma máquina especialmente para isso). Ao final do processo, o conjunto é levado ao forno em alta temperatura, fazendo com que o metal derreta sobre a porcelana, resultando em algo imprevisível. Prova de que a inovação no design passa, necessariamente, pela pesquisa de materiais. E nem sempre é necessário usar uma supertecnologia, apenas lançar UM novo olhar sobre materiais já existentes e disponíveis. Pode-se prescindir da tecnologia, às vezes – da experimentação, jamais!”

Winnie Bastian, jornalista e fundadora do site Design do Bom

Espaços alternativos 

“Chamou minha atenção o Ventura Centrale, onde estava a exposição Geometria Poética, da Dpot. Não apenas por isso, mas porque o conjunto das instalações vindas de várias partes do mundo realmente trazia o frescor e o espírito dos eventos Fuorisalone.”

Baba Vacaro, designer e diretora de criação da Dpot

“A Semana foi mais morna do que a do ano passado, com montagens mais discretas e menos expressivas. Do que eu gostei, ressalto o evento 5 Vie Art + Design, que reuniu cinco vias com montagens, trabalhos experimentais e produtos de novos designers. Também me chamou atenção as montagens com o viés do ‘design-build’, conectado com a tecnologia, a questão ambiental, a reciclagem e a valorização da natureza. Havia muita coisa sensorial, circuitos de luz e som, imagens e projeções. A instalação do Nendo e a Aqua, do Leonardo da Vinci, me surpreenderam. Tem um bairro novo e alternativo chamado Alcova, com vários estúdios e designers, uma galera jovem, mas com trabalhos muito interessantes.”

Aldi Flosi, produtor e consultor de estilo

Fotos: Reprodução, Interni e Amanda Sequim

Os mais belos cenários

“Várias instalações da Universidade de Milão, organizadas pela revista Interni, faziam a gente refletir sobre o momento presente. Logo na entrada, o Help escrito com tampas plásticas provocava a pensar sobre o lixo despejado nos oceanos. Os irmãos Campana ocuparam o espaço da faculdade com torres invertidas, fazendo contraponto com as do prédio histórico. Eles quiseram mostrar que tanto a arquitetura com a natureza têm seu poder nos espaços da humanidade. Foi também legal ver outros brasileiros por lá, como a Vivian Coser, com uma instalação de mesas com pedras brasileiras, e Márcio Kogan, cuja instalação Parla, com mesa e objetos de mármore, apontava a importância do estar à mesa. Comida é algo que italianos e brasileiros prezam muito. Foi uma sucessão de lindas instalações, sempre pensando no ser humano, em seu desenvolvimento e na sustentabilidade.”

Amanda Sequim, editora digital da Casa Vogue

Uma cidade fervilhante

“Há dez anos venho para a Semana, e volto sempre com a certeza que valerá a pena. A cidade fervilha e é sempre uma renovação para o olhar. Neste ano, fiquei bem impressionada com a Euroluce, inclusive com a iluminação técnica. Algumas marcas, como a Flos, arrasaram na seleção de produtos assinados. Algo que me intrigou foi ver como existe um inconsciente coletivo em relação a cores. Cada um em sua essência, mas dentro de uma mesma gama que se harmoniza com o todo. No Fuori Salone, o espaço do Tom Dixon estava um espetáculo: o showroom com restaurante trouxe um clima caótico delicioso, com pessoas visitando, pessoas esperando, pessoas comendo e mais importante, fazendo negócios! Gostei da Dedon, remetendo a um laboratório botânico, da Moroso, da Poltrona Frau e da Kartell, que este ano achei menos ousada.”

Selma de Sá, arquiteta

“O que mais me impressionou no Salão do Móvel foi a quantidade de pessoas que vieram para o evento. Segundo o jornal Corriere della Sera, houve um aumento de 50% em relação ao ano passado. Enfim, o design se tornou pop. Seria esse o desejo dos modernistas que sempre quiseram levar o bom design para a casa de todos, indistintamente de classe, cultura, etc? Eu, que estive em todas as Design Weeks de Milão nos últimos 30 anos, senti a dificuldade de circular pela cidade, com filas quilométricas para os eventos. O nível das exposições acompanha o crescimento do público, mas também chegamos a um ponto de aproximação perigosa entre o que é bom e o que é fake. Tornou-se impossível ver tudo o que é de interesse, por uma questão física. Isso coloca o evento diante de uma pergunta desconfortável: como administrar esse crescimento, sem descaracterizar a pesquisa de profissionais e agentes do setor? Eu não tenho essa resposta, mas me atrevo a dizer que o caminho fica nas propostas de preservação cultural (Galeria Massimo de Carlo e Fondazione Prada), inovação tecnológica (Nendo Studio), preservação do ambiente (Cos x Mamou-ManiWaste no More de Li Edelkoort, e Museo della Scienza e Tecnologia), novos caminhos estéticos (Depot Nilufar e Alcova). Investindo no que é novo, autoral, necessário e cultural, os novos designers, juntamente com os já estabelecidos, poderão navegar neste tsunami de produtos, na sua maioria cópias de cópias. Me deixou feliz ver a importante participação brasileira: galeria EspassoEtelDpot, entre outros, que levaram nosso design à primeira fila.”

Ruy Teixeira, fotógrafo

Leia também