As oficinas do designer têxtil carioca Renato Imbroisi em São Tomé e Príncipe abriram uma nova perspectiva para a população de Santa Catarina, no norte desse país

Fotos: Lucas Moura

Renato Imbroisi já perdeu a conta de quantas vezes percorreu o Brasil de norte a sul. Desde a década de 1980, ele trabalha com artesãos, dirigindo oficinas criativas para ensinar ou revitalizar as diferentes técnicas encontradas em diversas localidades no país. A partir dos anos 2000, começou a atuar como consultor de design e artesanato na África, nos países de língua portuguesa como Moçambique, Angola e São Tomé e Príncipe. Nesse último destino, onde realizou oficinas, encantou-se com o talento e a determinação de uma das bordadeiras, Noemia Albertina Cabalé. Conheça essa história narrada pelo próprio designer.

Fotos: Lucas Moura

“Desde 2005, eu trabalho no apoio ao artesanato de São Tomé e Príncipe, um país de apenas 200 mil habitantes no Golfo da Guiné. Vim pelo programa das Nações Unidas e da Agência Brasileira de Cooperação, vinculado ao Ministério de Relações Exteriores. Em 2015, me convidaram para fazer a curadoria do artesanato africano no espaço da Expo Milão. Com a arquiteta gaúcha Tina Moura e a designer Maria Cristiana Barretto, fiz o projeto expográfico. Eram mais de 130 grupos especializados em costura, bordado, marcenaria, papelaria, cestaria, tingimento… Nesse processo, conheci Noemia Calabé, que muito me sensibilizou pela força de seu bordado e por sua determinação.

“Grávida, ela vinha todos os dias de Santa Catarina, no norte do país, para ter aulas com a gente. Isso aconteceu de 2008 a 2013. Noemia ensinou o que aprendeu às vizinhas, amigas e parentes, formando o grupo que conta hoje com 30 bordadeiras de diversas idades. Na falta de uma sede, elas se reuniam ora sobre as pedras da praia ora debaixo da casa da artesã, para bordar, conversar e trocar conhecimentos.”

Fotos: Lucas Moura

“Quando eu montei o Instituto Renato Imbroisi há quase dois anos, resolvi levar grupos para a África que estivessem interessados em vivenciar essa experiência e apoiassem os projetos de artesanato em São Tomé e Moçambique. Em 2018, fomos para São Tomé e uma das integrantes do grupo, a paulista Silvia Ribeiro de Aquino, sabendo da história de Noemia e da minha vontade de construir um espaço para as bordadeiras de Santa Catarina, resolveu doar dinheiro para a iniciativa e assim nasceu a Casa das Bordadeiras de Santa Catarina, erguida pelo marido e pelo cunhado da artesã no terreno doado pelo município.”

Fotos: Lucas Moura

“Foi um projeto arquitetônico coletivo, com minha participação, das arquitetas Tina Moura e Lui Lo Pumo, da designer Maria Cristiana Barretto e do fotógrafo Lucas Moura. A construção foi inspirada nas palafitas de madeira dos redutos de pesca e nas palas que arrematam os telhados daquele país, uma releitura em portas e paredes que remete aos bordados dessas mulheres empreendedoras. Inauguramos o ateliê em junho e funcionará como oficina e local de venda para os panos africanos bordados por elas. Fizemos também uma coleção de panos com peixes da região que foi toda vendida para turistas. O espaço será o primeiro ponto de referência de turismo do local. São Tomé fica a uma hora e meia de voo de Angola e a oito horas de Lisboa, o turismo se intensificou desde que a ilha do Príncipe virou Reserva da Biosfera Mundial, em 2012. Essa ilha tem 7 mil habitantes e um roteiro especial, com hotéis de 5 e 6 estrelas.”

“Com o turismo aquecido, a Casa das Bordadeiras de Santa Catarina deve se tornar referência no país. Temos o apoio dos hotéis Cocoa e Mucumbli – esse está abrindo loja dentro de suas instalações com os produtos dos artesãos. Temos ainda uma política de divulgação na rede hoteleira local. A ida dos grupos do Brasil impacta muito nas vendas desses produtos, as artesãs ficam esperando nossas visitas. As viagens têm o objetivo de não só promover o artesanato, mas também apresentar a cultura local, danças, costumes, museus. São grupos pequenos de no máximo 12 pessoas. A próxima expedição está marcada para 2020, de maio a junho, porque o clima é mais fresco e não chove. Pretendo trazer os produtos delas para lojas do Brasil, as negociações já começaram, e é provável também que aconteça uma exposição no ano que vem em São Paulo. Enquanto isso não se concretiza, Noemia aguarda nosso retorno para pensarmos a próxima coleção.”

Fotos: Lucas Moura