Expedição do Projeto Sertões registra legado da arquiteta pernambucana em documentário que também mostrará como usar a arte popular e o artesanato na decoração contemporânea

Designer têxtil e jornalista, com vinte anos de atuação na revista Casa Claudia, Zizi Carderari, idealizadora do Projeto Sertões, percorreu em janeiro deste ano várias localidades de Pernambuco com uma equipe de fotógrafo e videomaker a fim de registrar os artistas e os artesãos do estado.  A expedição foi organizada com a finalidade de desenvolver produtos para o Interferência Janete Costa, espaço de exposição e venda na Fenearte (de 3 a 14 de julho, em Recife), maior feira do segmento da América Latina, e também documentar a história e o trabalho desses talentos. Na entrevista à Olhares.News, a jornalista e designer conta sobre essa fascinante experiência, que homenageou o legado da arquiteta Janete Costa, grande incentivadora do artesanato e da arte popular brasileiros.

Objetivo da expedição

“Nossa intenção desde o início foi mapear a arte popular, visitar artistas e artesãos, conhecer e desvendar o artesanato que pode ser valorizado na decoração. Essa é a missão do Projeto Sertões: mostrar como usar essas peças nas casas contemporâneas, fomentando a venda dos produtos. Isso era o que Janete Costa fazia. Não tem artista que eu visitei e não seja grato a ela, gratidão que emociona. Janete prestigiava o trabalho deles em suas decorações e teve grande influência no fato de Pernambuco ser o estado que mais valoriza o artista popular no Brasil, ela despertou isso lá.”

Equipe e patrocínio

“Levei comigo para Pernambuco o fotógrafo Salvador Cordaro, que fez a direção de fotografia, o editor de vídeo e operador de áudio Anderson Souza, da Javali Filmes, e o câmera Ale Santos. Registramos tudo com três câmeras e uma GoPro, que muitas vezes instalamos no Jeep Compass – a Jeep nos forneceu o veículo para a expedição. Contamos também com o patrocínio da Secretaria do Turismo de Pernambuco, Copergás e AD Diper, órgão que administra o centro de artesanato de Recife. As empresas Villa Nova Tecidos, By Kamy e Feira na Rosenbaum são nossas apoiadoras e desenvolveremos peças para elas.”

Itens para a Fenearte

“Vamos criar produtos para o Interferência Janete Costa, o espaço de exposição e venda na Fenearte. Em agosto, levaremos parte desse acervo à Feira no Rosenbaum durante o DW! Entre os artigos expostos, estarão tapetes desenvolvidos para a By Kamy, de São Paulo, com os artesãos de Lagoa do Carro, lugar com tradição na talagarça, de influência portuguesa. Lá, essa técnica é chamada de Brasileirinho. Já Val, filho do mestre Sussula, produzirá vasos em Tracunhaém. Alguns deles eu trouxe para São Paulo e ambientamos os modelos na casa do arquiteto Nildo José para o documentário.”

Artesanato e arte popular

Maria Amélia, da galeria Karandash, em Maceió, me disse certa vez: “Todo artista é artesão, mas nem todo artesão é artista”. Nem por isso o artesanato é menos importante. Muitas vezes o artesão diz que não estudou e fica parecendo que ele é inferior por causa disso, não é! O artesanato de raiz não tem nada de menor. Essa arte do ofício artesanal é ancestral e precisa ser preservada.”

Documentário

“Nosso roteiro, pretende mostrar o artesão, seu ambiente e seu trabalho e depois a peça dele inserida na decoração. O documentário terá 12 minutos e faremos outro com 28 minutos para oferecer a emissoras de TV. Começamos o trabalho por São Paulo, entrevistando a fotógrafa Maureen Bisilliat, que era dona de O Bode, a melhor loja de decoração e arte popular que a capital paulista já teve. Maurren trazia as peças para a Bela Cintra e as arrumava numa decoração incrível a fim de vendê-las para gente bacana. Os arquitetos Arthur Casas e Aldi Flosi, que costumam usar essas peças em projetos de interiores, também foram entrevistados. Em Olinda, falamos com Roberta Borsoi, filha de Janete Costa, e Bete Paes na casa onde viveu a arquiteta. As duas estão à frente do espaço Interferência, na Fenearte. A primeira-dama de Pernambuco, Ana Luiza Câmara, e o arquiteto e colecionador Carlos Augusto Lira também estarão no documentário.

Artistas e artesãos

“Nos arredores de Recife, fizemos mestre Cunha, Tiago Amorim, Nicola, mestre Sussula, lá descobri o filho dele, o Val, e visitamos Tracunhaém e o xilogravurista J. Borges, com quem passei uma das mais divertidas tardes da minha vida. Aos 83 anos, ele ainda conserva humor juvenil, conta histórias com riqueza de detalhes e com bom humor.”

“Foi uma boa surpresa rever mestre Cunha. Ele está autoconfiante, feliz com seu trabalho. Construiu uma casa melhor em Jaboatão dos Guararapes e transformou a garagem em oficina. Recebeu a gente orgulhoso de sua história.”

“Em Petrolina, já foi uma boa surpresa. Tem centro cultural com a obra de Ana das Carrancas, o neto sabe contar a história da avó, e as meninas continuam aprendendo a arte de modelar o barro. Dá para sentir que o amor circula por ali. Maria de Ana, uma das filhas, faz fruteiras e Angela, mandalas. A história é emocionante, Ana fazia figuras de olhos furados em homenagem ao marido, que era cego. sentir emoção do Ana das Carrancas amor entr eles, amor pela mãe, amor está ali, senti isso.

“Foi incrível ir com o artista plástico Tiago Amorim a Tracunhaém. Ele vive hoje em Olinda, mas morou no município e foi secretário da cultura de lá. Levou a gente em olarias, como a de Jair de Oliveira, outra descoberta maravilhosa.”

“Em Igarassu, reencontrei Abias, o cara mais doce que eu já conheci. Ele orienta jovens que querem aprender sua arte. Vamos desenvolver juntos duas luminárias  e espelhos com gravetos para a exposição em Recife. E não tem essa de inventar em cima das coisas dele, ficar enfeitando. Para esse trabalho, me orientei para a frase da Lina Bo Bardi: “Há um gosto de vitória e encanto na condição de ser simples, não é preciso muito para ser muito”.

Fotos: Salvador Cordaro