A arquiteta paulistana foi responsável pela reforma e pelo design de interiores do Fairmont, antigo Sofitel, inaugurado no início de agosto

Peças de design nacional e uma vista de tirar o fôlego estão entre os atrativos do Fairmont Copacabana, primeiro hotel de bandeira canadense na América Latina e mais recente projeto de Patricia Anastassiadis. A arquiteta é veterana nesse tipo de empreitada, responsável pela ambientação de vários hotéis, entre eles, do badalado Palácio Tangará, em São Paulo, além da concepção de unidades no Caribe e no Chile.

No Rio de Janeiro, o desafio foi preservar aspectos arquitetônicos e a atmosfera da construção carioca, priorizando o bem-estar e o conforto dos hóspedes. “O trabalho de retrofit é mais sutil. Envolve a afetividade, mexe com a memória que remete a lembranças e histórias”, afirma Patricia. Na ambientação, o mobiliário passa por importantes nomes do design nacional, como Jorge Zalszupin, Sergio Rodrigues, Etel Carmona e Ronald Sasson, além de peças desenhadas pela própria arquiteta. Esculturas de Hugo França, cerâmicas de Heloisa Galvão e cestarias desenvolvidas por artesãos do Amazonas sob orientação de Sérgio J. Matos conferem brasilidade à estreia do grupo Fairmont Hotel & Resort no país. Nesta entrevista exclusiva, a profissional fala sobre o novo projeto e as mudanças de comportamento no mercado hoteleiro.

Quais foram os desafios do retrofit do Fairmont no Rio de Janeiro?

Esse foi um projeto complexo, no qual quebramos paradigmas e mudamos o fluxo de circulação do hotel, levando o lobby, onde se faz o check in, do térreo para o 6º andar do edifício. Deparamos com uma série de questões técnicas: muitas colunas, corredores extensos, ausência de saídas de emergência. Esse é um hotel de 450 apartamentos e nosso desafio foi criar uma relação entre os espaços sociais, para que eles se tornassem intimistas e tivessem também conexão com a vista, que é de cartão postal. Na área da piscina, de frente para Copacabana, a sensação que se tem é de estar em um deque de navio, você enxerga a praia de ponta a ponta sem interferência. No térreo, onde ficam a loja e um café, trabalhamos a extensão da calçada, levando a pedra portuguesa para o interior.

O que você quis valorizar nesse retrofit?

Esse é o primeiro Fairmont da América Latina e foi um desafio de linguagem, pois os hotéis da rede são bem mais clássicos, com uma influência europeia, embora seja uma bandeira canadense. Relatei a eles minha vontade de dialogar com designers brasileiros. Eles não admitiam repetição de mobiliário, então, o desafio foi grande. O Fairmont de Copacabana tem frescor, é leve e está conectado com o local onde está inserido. Trabalhei um pouco mais a mistura de materiais: madeira, pedra, metal, não quis que ele perdesse a relação com Brasil. Retrofit é uma arqueologia, tem de trabalhar com situações de improviso a todo tempo. Existe, é claro, um guide line a ser seguido, mas eu pude introduzir o que eu quis. Foi uma ruptura positiva e eles ficaram satisfeitos.

O modelo norte-americano de replicar o estilo em qualquer parte do mundo está caindo em desuso?

Não acredito na arquitetura impositiva, ela tem de ser construída com o local. Lógico que é preciso dialogar com a marca e levar em conta características de estudo de comportamento, do clima…  As bandeiras hoteleiras têm histórico e não se pode ignorar isso, mas não existe um modelo fixo.O retrofit, por exemplo, tem infinitas limitações, e deve ser visto e apreciado de outra forma. Você não tem controle sobre um monte de coisas, e precisa lidar com essas questões. O projeto te desafia o tempo todo. Dá um estresse maluco, mas mergulhar na memória é algo que me dá prazer. Atualmente existe uma ânsia de sempre mostrar o novo, mas não o caminho. De onde veio para onde foi? Quais são os impactos? A história é muito negligenciada.

Você acha que o Airbnb ameaça a rede hoteleira?

O Airbnb veio com força e é mais uma opção de hospedagem, mas a grande diferença com a hotelaria é o serviço. Você aperta um botão no hotel e alguém aparece na porta do seu quarto para te atender. As bandeiras começaram a apostar na experiência, antes era apenas dormir em um quarto bom e até logo. A hotelaria hoje antecipa desejos e alguns hotéis até fazem questionários para saber sobre suas vontades e seus interesses. A experiência proporcionada é muito diferente de um Airbnb. Já me hospedei em um hotel em que o concierge preparava o roteiro de passeios. A hotelaria não é mais uma estrutura travada.

Você tem feito vários hotéis ao longo dos anos. Tem ideia de quantos são?

Já perdi a conta. Tivoli, Hilton, Hyatt, Club Med, Tangará, Fairmont… No Club Med de Trancoso, o projeto veio da Áustria e eles propunham um castelo na Bavária para o kids club. Você recebe coisas assim e pensa: “Espera aí, eu estou no Brasil”. Eu defendo muito ter nossas referências. O Hilton na Barra tem uma coleção de arte e design brasileiros que não existe em muito museu. Meu trabalho é também conectar as bandeiras internacionais à realidade nacional. Disso, eu não abro mão e, ao longo dos anos, essa minha postura foi sendo valorizada pelo segmento.

Quais são os próximos projetos? 

Estou fazendo um retrofit no Rio, supercomplexo, e com muita memória. Quando você conversa com quem já se hospedou no local, o sorriso é inevitável. Isso é algo muito particular na hotelaria. Hotéis bacanas sugerem sorrisos, porque sempre vai remeter a um bom momento, a uma história de celebração, descontração e relaxamento. Hotelaria, além de gerar empregos, traz também esses sentimentos à tona.

Fotos: Ruy Teixeira e Ana Mello

Palácio Tangará, em São Paulo.

Fotos: Joana França

Hilton Barra, no Rio de Janeiro.

Fotos: Divulgação

Jumb Bay Island, na Antigua.