Na segunda linha assinada para a marca, a arquiteta explora o vidro soprado, pedra, madeira e outros elementos, reciclados ou não, que tornam cada peça única

Foto: Salvador Cordaro

Desde quando assumiu a direção criativa da Artefacto há quatro anos, a arquiteta Patricia Anastassiadis mergulha nos processos fabris da tradicional indústria moveleira do país com quatro décadas de história. “Os primeiros anos serviram para fazer ajustes, de conhecer e limpar o portfólio da empresa”, afirmou ela na semana passada (15 de março), durante o lançamento da coleção. Dessa vez, ela não só desenhou as peças como também sugeriu produções artesanais: a do vidro soprado em mesas e a do granilite em tampos. Dividida em três temas – Terracota, Cut Piece e Soft Fiction, a linha com 22 peças valoriza a atemporalidade, o requinte de acabamento e a diversidade de materiais. Todos os itens estão expostos na vitrine e nos espaços conceitos assinados pela arquiteta no showroom da rua Haddock Lobo (nº 1405), onde também acontece a tradicional mostra de decoração da marca com ambientes decorados por Débora Aguiar, Maurício Karam, Fabio Morozini, Chris Hamoui, entre outros.

Coleção marcante

“Este é o segundo ano em que estou trabalhando a linha completa, fazendo todos os desenhos, que são frutos de muita pesquisa e desenvolvimento. Nos três primeiros anos, conheci a indústria por inteiro. Em 2018, também desenhei a linha toda, mas sinto que dessa vez o conjunto está mais harmonioso, o trabalho com a madeira está mais delicado, tem formas mais leves, como as do banco Vivika.”

Técnicas artesanais

“Introduzi as técnicas de pequenos artesãos na produção, combinando o feitio artesanal com a qualidade e a técnica industrial da Artefacto. A maior parte das peças é desenvolvida pela empresa e 10%, com parceiros, como no caso do vidro soprado. Apesar de a Artefacto ser uma indústria, quero trazer para a coleção peças que sejam únicas. Usamos a mesma pedra, mas os recortes são diferentes, nunca uma pedra será igual a outra. Mesma questão do vidro soprado, nunca teremos duas mesas idênticas. Esse é o encanto do “fatto a mano”.  Entretanto, a montagem, o entendimento da peça e toda a qualidade final são sempre de responsabilidade da Artefacto.”

Diversidade de materiais

“No ano passado, iniciei o uso de chapa e do couro. Agora, temos o vidro e o granilite, que eu adoro e não canso de olhar. É um material com personalidade, se relaciona com a memória da cidade e com a arquitetura. Nas mesas Niki, explorei o contraponto para os tampos flutuarem, foi complexo estruturá-los de maneira que as mesas tivessem estabilidade e pousassem nos pontos certos. O vidro soprado também está inserido no contemporâneo, mas carrega uma história. Com relação aos estofados, as espumas e as plumas são de primeira qualidade porque não queremos nos prender apenas na estética, o conforto é primordial. Sem conforto, o móvel vira escultura.”

Temas selecionados

“Dividida em três conceitos: o Terracota se detém nas tonalidades terrosas e se inspira nos trabalhos com a terra cozida e todas suas variações que remetem a experiências familiares que acolhem. O Cut Piece explora recortes, ângulos inusitados, são sofás angulados, mesas com pés longilíneos e torneados, conchas curvas em cadeiras e poltronas. O Soft Fiction traz o vidro como matéria-prima reaproveitável e com novas formas de uso.

Conexões

“Gosto de conectar pessoas, competências, trabalhos de família, regiões. O que eu puder trazer para dentro da indústria, eu farei. Adoro vidro e gosto do sopro, as peças de Murano sempre me fascinaram. Fui pesquisar e vi que tinha uma terceira geração para desenvolver esse trabalho conosco, o forno da fábrica deles estava desligado, vi todos os moldes antigos e quis conhecer mais, conversamos muito até eu convencê-los a apostar nessa produção. Esse é um trabalho que eu gosto de fazer, conhecer outras indústrias e ir conectando uma a outra.”

Arquitetura e design

“Nunca sou só arquiteta, não me fixo em um padrão, sempre encaro a questão de escala. O cliente é o corpo humano, mas o uso tem de existir, há um trabalho em projetar um prédio e um produto e eu não consigo entender como não fazemos isso em paralelo. Trabalhar para uma empresa de móvel é diferente do que tocar o próprio escritório, como eu faço no Anastassiadis Arquitetos. Na Artefacto, eu acabo tendo mais possibilidades de explorar técnicas e materiais. Estou muito satisfeita com o resultado da coleção 2019, ela está madura. Desenhei bastante e sem dúvida meu conhecimento técnico aumentou. São peças que permanecerão atuais apesar do tempo.”

Fotos: Divulgação e Regina Galvão.