Nos 60 anos da capital federal, relembramos o mobiliário produzido pelos mestres do design brasileiro para os palácios desenhados por Niemeyer

Não há como mencionar Brasília sem pensar em seu precioso conjunto urbanístico e arquitetônico planejado por Lucio Costa e Oscar Niemeyer nos anos 1950. Há, porém, outros tesouros desse período pouco conhecidos do público, como o mobiliário idealizado por nomes como Anna Maria Niemeyer, Sergio Rodrigues, Bernardo Figueiredo e Jorge Zalszupin para os palácios do governo. Para conhecer melhor essa história, entrevistamos o economista João Carlos Ramos Magalhães, que foi coordenador da Comissão de Curadoria da Presidência da República e responsável por recuperar originalmente vários desses interiores. Veja ainda nossa seleção de móveis palacianos e o artigo do diplomata Heitor Granafei, curador da exposição “Desenhando para um Palácio – o Itamaraty e o Design”, em 2018.

Palácio da Alvorada, 1960. Mobília e projeto de interiores de Anna Maria Niemeyer, que combinava suas criações contemporâneas com peças tradicionais. Na terceira imagem, o Salão Nobre do Palácio do Planalto, no mesmo período.

Fotos Iphan e MRE

Entrevista João Carlos Ramos Magalhães

Como iniciou sua pesquisa do mobiliário moderno?

João Carlos – Eu sou economista do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), do Ministério da Fazenda, e um estudioso do mobiliário moderno há várias décadas. Três anos atrás, no governo Michel Temer, fui convidado pela Diretoria de Documentação Histórica do Gabinete Pessoal do Presidente da República, que cuida do acervo privado e público do presidente, para coordenar a Comissão de Curadoria dos palácios. Com isso, fui conhecer o acervo de bens de interesse histórico e artístico, incluindo obras de arte e mobiliário.

O acervo estava bem preservado?

Não. Quando iniciei, percebi muita desorganização de móveis nos espaços dos palácios: o do Alvorada, o do Planalto, o do Jaburu e na Granja do Torto. Em depósitos gigantes, encontrei mobiliário destruído e abandonado, cerca de 3 mil itens. Entre eles, havia peças que eu nunca tinha visto. Eram exemplares de excelente qualidade. Quando Niemeyer desenhou o Palácio da Alvorada, residência do presidente, ele não quis chamar um decorador e sugeriu à filha Anna Maria Niemeyer, dona de uma das mais importantes galerias de arte do país na época, coordenar a equipe de designers. Além de desenhar móveis, Anna escolheu também obras de arte, tapetes, cortinas, tapeçarias, louças, talheres e roupa de cama. No Arquivo Público do Distrito Federal, descobri 162 plantas de mobiliário, algumas com assinatura de Anna Maria e outras não. Nessa documentação, encontrei ainda os depoimentos da arquiteta sobre essas criações.

Como eram esses móveis?

Os móveis seguiam a estética harmônica da arquitetura dos palácios: linhas retas, delicadas, uma estética similar a dos móveis modernos americanos e europeus. Anna e sua equipe desenharam diversos móveis de escala palaciana: mesas de banquete para 49 lugares, sofás de 3,5 m… Móveis desenhados e produzidos no Brasil, como armários, camas, sofás, poltronas, mesas de canto e de centro, de jantar, de banquete, de reunião, estante de biblioteca.

Por que as ambientações foram descaracterizadas?

Nos anos 1970, durante o governo militar, dizem que a mulher de Ernesto Geisel, Lucy Geisel, contratou um decorador para refazer os ambientes. Os militares queriam a pompa do mobiliário imperial e não o minimalismo do móvel moderno. A primeira-dama foi a museus e pegou o que queria, trazendo mobiliário imperial, francês e barroco para Brasília. Apenas algumas peças da fase de Niemeyer foram mantidas, como as mesas de banquete.

E o que aconteceu depois desse período?

Na década de 1980, sai de moda o estilo imperial dourado e se estabelece o mogno pesado com espelhos. O governo passa a comprar essas peças. Depois, com a redemocratização, Fernando Henrique e Ruth Cardoso voltam a ter uma equipe responsável pelo mobiliário, que começa a reconstituir esses espaços. Eles dão o ar moderno, mas não conseguem chegar perto das ambientações originais. Compram mobiliário da Forma, alguns importados, como o sofá Maralunga, de Vico Magistretti, e o sofá Schön, de Ballardini. No governo Lula e Dilma, não se mexe em nada, eles mantiveram nos palácios a mesma configuração dos anos 1990.

Horácio Lafer discursa diante da mesa concebida por Sergio Rodrigues para o gabinete provisório do Itamaraty; João Batista Figueiredo na sala de reuniões do Palácio do Planalto, com a mesa Ilidio e as poltronas Halperin, de Sergio Rodrigues.

Fotos Iphan e MRE

Como foi seu trabalho para recuperar a decoração planejada pela Anna Maria Niemeyer?

Foi um trabalho de formiguinha. Pesquisei fotos de Marcel Gautherot e Thomaz Farkas, capturadas nos anos 1960, e as plantas de Anna, nas quais ela especificava a cor, o tipo de tecido, e restauramos tudo como era. Essas imagens serviram de norte para o reposicionamento do mobiliário nos pontos planejados originalmente por Oscar e sua filha. A ambientação ficou exatamente igual e, quando não achávamos alguns dos móveis nos depósitos, incluímos peças similares desenhadas pelos designers contratados na época. Os móveis italianos comprados anteriormente foram destinados às áreas privativas. Como Temer ficou morando no Palácio do Jaburu, a curadoria teve muita liberdade para reconstituir os espaços no Palácio da Alvorada. Ele foi entregue para o presidente Jair Bolsonaro como era na década de 1960.

Quantos móveis foram recuperados?

Cerca de 800 moveis modernos, 200 cadeiras de Sergio Rodrigues para mesas de reuniões. Todas as camas do Palácio da Alvorada eram do Sergio Rodrigues.

E esse trabalho de curadoria permaneceu?

Não, com a mudança de governo, a comissão foi extinta. Não tem órgão do palácio com poder político para fazer a recuperação e a conservação dos móveis. O pior, na minha opinião, é não ter a conservação desse patrimônio de interesse histórico e artístico. Mas ao ver imagens desses ambientes reparo que estão praticamente mantidos como deixamos, mudou muito pouco.

O traço dos mestres a serviço de Brasília

Sergio Rodrigues

Fotos Instituto Sérgio Rodrigues/Divulgação

Para o Palácio do Planalto, o arquiteto e designer criou a poltrona Beto, com estrutura de metal, braços de madeira de lei maciça e assento e encosto revestidos de tecido ou couro.

Divulgação

No Palácio Itamaraty, na década de 1960, Sergio projetou os interiores de diversos gabinetes ministeriais com mobiliário imponente, composto de madeira maciça de jacarandá, estofamentos de couro e veludo e botões metálicos cobrindo parafusos e junções nas estruturas. O conjunto de móveis resultou em itens exclusivos e outros que entraram em produção comercial. A primeira encomenda foi a escrivaninha ES-06, que ganhou outras versões – a maior delas com tampo de 3m x 1m para o Ministro das Relações Exteriores.

Jorge Zalszupin

Divulgação

A poltrona Ambassador, desenhada por Jorge Zalszupin nos anos 1960, foi adaptada para a sala do plenário do Supremo Tribunal Federal na década de 1970. Chegou a virar notícia com as constantes transmissões de sessões do STF.

Bernardo Figueiredo

Dpot

O arquiteto carioca concebeu móveis para o Palácio dos Arcos, edifício-sede do Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty. Entre eles, a cadeira Arcos, o sofá Conversadeira em versão palaciana com veludo capitonê – esse modelo ganhou contornos de madeira e palha natural para a venda comercial – e outras peças de grandes dimensões, todas de madeira nobre.

Histórias do mobiliário de Brasília

Por Heitor Granafei, diplomata e curador da exposição “Desenhando para um Palácio – o Itamaraty e o Design”

A história do mobiliário brasileiro foi contada, nos últimos 40 anos, a partir do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os 60 anos de Brasília são uma oportunidade de reavaliar o papel da cidade nessa trajetória. Há uma série de fatos pouco conhecidos e divulgados, e que merecem mais atenção dos estudiosos do design brasileiro.

Reza a lenda que os prédios públicos de Brasília foram mobiliados com peças de Oscar Niemeyer, Sergio Rodrigues, Tenreiro e Jorge Zalszupin, e que os móveis originais foram substituídos, durante o regime militar, por uma decoração burguesa de gosto afrancesado. Essa história se baseia, em larga medida, na queixa de Sergio Rodrigues de que alguns de seus projetos de interiores feitos para residências oficiais na Península dos Ministros foram desmontados “pelos generais”. Dois projetos paralelos de pesquisa, realizados na Presidência da República e no Itamaraty, de 2016 a 2018, revelam uma história diferente e bem mais complexa.

Na Presidência, descobriu-se que os interiores originais do Planalto e do Alvorada foram concebidos por Anna Maria Niemeyer. Para esses ambientes, a arquiteta combinou a poltrona Barcelona com móveis tradicionais, e desenhou ela mesma mobília em “estilo tubular” e em madeira torneada. Por motivos desconhecidos, as peças em madeira eram, até hoje, atribuídas a Joaquim Tenreiro. Se Sergio Rodrigues efetivamente participou do projeto original, sua contribuição teria se resumido à cadeira “Beto” – embora a peça não apareça em nenhuma foto da época da fundação. Sérgio Rodrigues criou, sim, para Brasília, uma escrivaninha para o escritório provisório do Ministro das Relações Exteriores em Brasília, em 1960, antes da construção do Palácio Itamaraty. Um exemplar ainda existe no Ministério da Agricultura.

Alguns ambientes do Planalto foram redecorados em 1970 por Jorge Hue, que usou mobiliário da Oca: provavelmente a mesa Ilídio ou a Vianna, o sofá Pajé, a cadeira Halperin. Esses móveis aparecem frequentemente nas fotos de reuniões de Médici e Geisel na década de 1970, e vários estão até hoje no Planalto. Também há uma grande quantidade de móveis da l’Atelier, que parece ter sido adquirida por licitação. Na reforma do palácio realizada em 2010, foram compradas dezenas móveis de Sergio Rodrigues, executados pela Etel Design. Uma iniciativa louvável, que induz várias pessoas a pensar que o edifício era orginalmente mobiliado por Sergio Rodrigues, ofuscando o papel de Anna Maria Niemeyer.

No Ministério das Relações Exteriores, o projeto de pesquisa preparatório para o aniversário do Palácio dos Arcos revelou que os interiores do palácio foram montados pelo diplomata Wladimir Murtinho e pelo arquiteto chefe do Ministério, Olavo Redig de Campos, entre 1966 e 1970. Tomou-se a decisão de decorar o palácio exclusivamente com peças brasileiras, projetando a imagem de um país em acelerado processo de desenvolvimento econômico e social, capaz de produzir uma estética própria, de interesse e relevância universais. O mobiliário desempenhava um papel central nesse projeto, em pé de igualdade ao das obras de arte, pois demonstrava a capacidade de nossa indústria de realizar produtos de alto padrão de execução com características essencialmente nacionais.

Cada espaço do palácio foi atribuído a um grande designer brasileiro: o Salão de Banquetes a Tenreiro; os gabinetes a Sergio Rodrigues; dois pequenos salões conviviais, duas salas de almoço de trabalho e a sala do Conselho de Política Exterior a Bernardo Figueiredo; e o grande Salão de Recepções, a Bernardo Figueiredo e Jorge Hue. Dezenas de modelos originais palacianos foram desenvolvidos para o Itamaraty, em caráter exclusivo, um conjunto consistente de mobiliário de alto padrão, dimensões monumentais (pois os espaços do palácio são enormes, quase do tamanho de piscinas olímpicas), estilo e materiais marcadamente nacionais e modernos, concebido com fins especificamente representativos. Em uma palavra, mobiliário palaciano.

Não há outro caso na segunda metade do século XX de mobília palaciana encomendada a uma escola nacional de designers. Tanto nos países desenvolvidos como nos em desenvolvimento, o padrão de mobiliário de representação da época consistia nos móveis da Bauhaus, do trio Corbusier-Perriand-Jeanneret e de firmas americanas como a Knoll e a Herman Miller. A exemplo do “estilo internacional” arquitetônico, a utilização desse mobiliário manifestava a adesão a uma modernidade cosmopolita e transnacional – exatamente o oposto da escola nacional que se desenvolvia no Brasil. Os poucos países que tinham escolas de mobiliário, como os escandinavos, não estavam construindo grandes palácios – no máximo, embaixadas. Mesmo o Mobilier Nacional da França, que tem a tradição de encomendar peças aos designers franceses para prédios públicos, nunca ultrapassou a escala de dois ou três ambientes. Por outro lado, no mundo em desenvolvimento, onde estavam sendo construídos palácios, não havia outra escola nacional de mobiliário moderno como a brasileira.

Com o tempo os salões do palácio foram sendo enriquecidos por exemplares de mobília colonial do acervo da antiga sede do Itamaraty, no Rio de Janeiro. Os amplos salões de Niemeyer revelaram-se uma “caixa branca” perfeita para os ornamentos barrocos dos tronos, papeleiras e mesas de encostar de jacarandá escuro. Um elemento de contraste adicional era a extraordinária coleção de pinturas modernas, em especial as grandes obras abstratas de Manabu Mabe, Arcângelo Ianelli, Tomie Ohtake, Iberê Camargo e Burle Marx. Realizava-se, assim, a fusão entre arquitetura moderna e o passado colonial brasileiro dos projetos de Lúcio Costa, nunca executados, para a residência do colecionador Ernesto Gomes Fontes, em 1930.

Pouca gente se dá conta de que o Governo Federal é, provavelmente, o maior comprador individual de móveis de escritório, e que nas repartições de Brasília provavelmente ainda se conservam exemplares que, se não tem grandes ambições estéticas, testemunham, ainda assim, um importante capítulo da história da indústria moveleira nacional. Em fins da década de 1960, o Departamento de Administração do Serviço Público (DASP) adotou um padrão de mobiliário para as compras do governo, inspirado nos móveis licitados para XXI Reunião Anual Conselho de Governadores do FMI, realizada em 1967 nas dependências do MAM Rio. Esse padrão teve um significativo impacto na indústria moveleira, que teve que planejar sua produção para concorrer às grandes compras feitas pelo Estado.