Série produzida pela embaixada do Brasil em Tóquio apresenta as obras dos mestres do mobiliário de maneira divertida

O português Joaquim Tenreiro, mestre do mobiliário moderno brasileiro, virou protagonista da história em quadrinhos criada pela embaixada de Tóquio.

Desde que foi criado, o Instagram da Embaixada Brasileira em Tóquio (@brasembtokyo) nunca repercutiu tanto entre seus seguidores. Esse sucesso se explica pelos posts em formato de histórias em quadrinhos, cujos protagonistas são nossos mais renomados designers: Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi, Sergio Rodrigues, irmãos Campana, Claudia Moreira Salles e muitos outros. A curiosidade bateu forte por aqui e fomos investigar quem concebeu a ideia e qual seu objetivo. Nesta entrevista com Raphael Oliveira do Nascimento, responsável pela área de Imprensa e Diplomacia Pública da embaixada, revelamos esses e outros detalhes da ação que explora positivamente a imagem do Brasil em território japonês.

Como surgiu a ideia da campanha?

Parte do esforço de nossa embaixada aqui no Japão é tentar superar estereótipos e mostrar facetas do Brasil que a maioria dos japoneses não conhece. Todos estamos acostumados a ter o Brasil associado ao futebol, ao carnaval, à música, a nossas praias, a nossos produtos agropecuários… São qualidades que nos enchem de orgulho e fazem parte de nossa imagem. Nós sabemos, porém, que temos muitos outros pontos fortes, como o design e a arquitetura. Tenreiro, Sergio Rodrigues, Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha são nossos “Pelés” nessas áreas. E, depois deles, vieram vários outros “Romários”, “Rivaldos”, “Ronaldinhos”. Nosso papel é assegurar que os japoneses saibam disso também.

Qual o objetivo da campanha e quando ela começou?

O Itamaraty mantém uma relação muito forte com a arquitetura e o design brasileiros, apoiando e valorizando diversas iniciativas de promoção e divulgação. Por aqui, não é diferente. Paulo Mendes da Rocha foi o responsável por projetar o pavilhão do Brasil na feira internacional de Osaka de 1970, com grande sucesso. O prédio de nossa embaixada em Tóquio, projetado pelo Ruy Ohtake no início dos anos 1980, é considerado um edifício icônico na cidade. Em 2005, apenas para citar alguns exemplos mais recentes de nossa atuação, recebemos na embaixada uma bela mostra de peças dos irmãos Campana; em 2015, houve uma grande exposição sobre o Niemeyer em um dos maiores museus da cidade, o MOT; em 2016, apoiamos também a realização da mostra sobre Lina Bo Bardi no Watari Museum, e outra do Paulo Mendes da Rocha na GA Gallery, ambas em Tóquio. O embaixador André Corrêa do Lago, que chefiou a embaixada entre 2013 e 2018, é o primeiro brasileiro a integrar o júri do Prêmio Pritzker de Arquitetura, e sempre atuou muito fortemente para que a arquitetura e o design brasileiros se tornassem ainda mais conhecidos no Japão. Esse esforço não é, portanto, novo.  E esse objetivo permanece, em meio a tantos outros, na gestão do embaixador Eduardo Saboia, que assumiu a embaixada no início do ano.

Por que usar o formato de quadrinhos?

Quando iniciamos a série, a embaixada havia acabado de começar nossa conta no Instagram e estávamos buscando um formato que não apenas transmitisse as informações desejadas, mas também cativasse o público. Veio então a ideia de apresentar nossos designers nesse formato de mangá, expressão artística bastante familiar aos japoneses.

Quem desenvolve os temas das histórias?

Depois da ideia inicial, nossa equipe de diplomacia pública deparou com um problema: ninguém aqui era exatamente um artista. Então nos perguntamos: “Será que não tem um ‘app’ pra isso?” E não é que tinha? Fazemos tudo com imagens obtidas da internet, que são recortadas e adaptadas usando um programa de manipulação bem simples. Depois transformamos em formato de desenho com um aplicativo. Outro aplicativo monta os quadrinhos e retomamos o programinha de imagens para colocar o resultado final nas proporções do Instagram. Enquanto isso, uma de nossas funcionárias, a inestimável Kanayama-san, faz a tradução dos textos, dos nomes dos móveis e das citações para o japonês. É tudo muito artesanal e trabalhoso. Sobre alguns designers sequer há informação em língua japonesa. Isso aumenta muito nossa responsabilidade, pois, nesses casos, estamos definindo até mesmo a grafia do nome dos mestres em japonês.

Quais foram os critérios para selecionar os designers?

Estruturamos a série em três segmentos, que também fazem referência à linguagem dos quadrinhos: Masters of Design, para homenagear os grandes nomes; Living Legends, para mostrar designers consagrados que ainda estão em atividade; e Next Generation, para divulgar a nova safra.

E qual a fonte de vocês para escrever os textos?

Inicialmente, usamos o livro Brazil Modern: the rediscovery of Twentieth-Century Brazilian Furniture, do Aric Chen. Como o material é preparado em três línguas, era mais fácil começar em inglês. Esgotados os nomes listados nesse livro, partimos para as lendas vivas, usando como referência algumas outras publicações que temos no acervo da embaixada e também as descrições das marcas que representam esses designers, tudo muito resumido para se adequar à linguagem das redes sociais. A lista da nova geração, que, para nossa sorte, é enorme, ainda está sendo pensada.

Quantos serão e quais já foram publicados?

Desde outubro do ano passado, já foram publicados 12 designers: Joaquim Tenreiro, Lina Bo Bardi, Sergio Rodrigues, Geraldo de Barros, Giuseppe Scapinelli, Ricardo Fasanello, Oscar Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha, Jorge Zalszupin, José Zanine Caldas, Irmãos Campana e Claudia Moreira Salles. A ideia é continuar a fazer um por semana, enquanto tivermos fôlego.

Como tem sido a repercussão para esses posts?

Tem sido incrível. Realmente não esperávamos. É possível dizer que essa foi a primeira série de nosso perfil no Instagram que realmente viralizou. E nos deixou muito contentes também a enorme aceitação e apoio que a série tem recebido dos próprios designers, de seus familiares, das marcas e galerias que representam suas peças, dos críticos, acadêmicos, imprensa especializada e arquitetos. As imagens têm sido republicadas por várias dessas pessoas. A Lissa Carmona e a Etel têm também nos apoiado com bastante entusiasmo, e talvez tenham sido elas as grandes responsáveis pela repercussão inicial dos posts. A Lissa chegou caracterizar a série como “uma das melhores coisas do Instagram em 2018”, o que nos encheu de orgulho. O pessoal da Espasso e da R and Company, que representam vários de nossos designers nos Estados Unidos, também nos estimularam. Recentemente, o Estúdio Campana republicou o quadrinho que fizemos dos irmãos Campana e, pelo que vi, foi um dos posts de maior sucesso na história do perfil deles.

E no Japão, como tem sido esse retorno? 

A revista “Brutus”, uma das mais conceituadas publicações japonesas sobre design, arquitetura e estilo de vida, fez uma longa matéria sobre mobiliário brasileiro e nos pediu as imagens para ilustrar o perfil de alguns designers. Também começamos a receber pedidos de informação de galerias e lojas especializadas, alguns dos quais têm se convertido em viagens de compradores japoneses ao Brasil. Esse é nosso ponto de chegada: fazer o Japão consumir mais design brasileiro e gerar negócios para as empresas brasileiras.

Há alguma outra ação sendo programada? Vocês têm algum evento este ano relacionado ao design ou à arquitetura?

O esforço será para transformar a repercussão da série em maior presença do design brasileiro no Japão e em negócios. Em trabalho coordenado com o Setor de Promoção Comercial e com o Setor Cultural da embaixada, já tínhamos alguns projetos preparados e outros que surgiram por conta da série. Haverá algumas boas surpresas nos próximos meses, mas ainda não posso adiantar.

Qual o interesse dos japoneses por nosso design e nossa cultura?

Apesar da distância, há várias conexões entre o Brasil e o Japão. Temos a maior comunidade de nipodescendentes do mundo; a quinta maior população estrangeira residente no Japão é de brasileiros. Há, nesse contexto, muitos contatos entre nossas culturas. Nosso papel é fazer com que esse interesse seja aprofundado e ampliado. O Japão é um país que consome produtos associados a países que têm uma identidade própria, única. Acreditamos que o Brasil é um desses países e que a qualidade de nosso design nos ajuda a formar um quadro mais completo do país contemporâneo. A imprensa especializada sabe disso, e sempre vemos referências a nosso design e arquitetura em revistas como a Brutus, já mencionada, a Axis, a Pen, a Confort e tantas outras. Para que os japoneses possam levar nosso design para dentro de suas casas, contudo, é preciso que os produtos estejam disponíveis aqui no Japão. Alguns nomes já fazem parte do catálogo de grandes escritórios, lojas e galerias internacionais, mas ainda há uma enorme avenida de oportunidades a ser explorada.

A Japan House São Paulo tem trazido várias exposições japonesas para cá? Vocês acompanham esse intercâmbio? De que maneira?

 Sim. Temos um ótimo contato com a Japan House São Paulo. Por meio do Setor Cultural da embaixada foi iniciado no ano passado um primeiro intercâmbio, que resultou na vinda para o nosso espaço de exposições de uma das mostras originalmente expostas por eles (“Do: o Caminho da Virtude”). Em razão do êxito dessa colaboração inicial e da ótima relação que construímos, a expectativa é que haja vários outros projetos conjuntos no futuro.

Veja acima alguns dos designers retratados pela série de mangás divulgados pela embaixada do Brasil em Tóquio nas redes sociais.