Autoridade quando se trata de bambu, o educador mineiro propõe uma nova arquitetura baseada no uso desse material

Lucio Ventania é referência no uso do bambu para a construção de mobiliário e estruturas.

Lúcio Ventania é um dos principais propagadores do uso do bambu na construção civil, reconhecido internacionalmente pelo trabalho como mestre bambuzeiro e educador. Conheci-o na premiação de sustentabilidade Planeta Casa, organizado pela revista Casa Claudia nos anos 2000, na qual ele participou como finalista. Atualmente Lucio dirige o Cerbambu Ravena, centro voltado para pesquisa e desenvolvimento de metodologias para a popularização do material no Brasil. Coordena também o Projeto Ravena 30, que se propõe a manter condições para o desenvolvimento e a consolidação da cadeia produtiva do material por 30 anos, na região de Ravena, em Minas Gerais. Recentemente ele publicou um texto no Instagram, contando como está vivenciando a quarentena. Esse relato me despertou a vontade de retomar o contato com ele. O reencontro resultou na entrevista que você lê aqui.

O centro Cerbambu Ravena, em Sabará, Minas Gerais, foi fundado em 2009.

O que é o Cerbambu Ravena?

Lúcio Ventania – O Centro de Referência do Bambu e das Tecnologias Sociais funciona como uma construtora e escola: elabora e executa projetos arquitetônicos em bambu. Presta serviços, consultoria, comercializa produtos, ministra cursos técnicos e desenvolve projetos sociais. O Cerbambu está há 11 anos no distrito de Ravena, que é município de Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Como começou esse projeto?

LV – Em 2009, eu fiquei exausto, trabalhando nas cinco regiões do país, orientando comunidades pobres a trabalhar com o bambu. Trabalho complexo. Meu público alvo eram pessoas sem nenhuma instrução, que não frequentaram escola, dominados pela igreja e pelo sistema capitalista, explorados de maneira agressiva. Tinha de iniciar pelo básico, noções de relacionamento, capacitação para produção, comercialização… Então resolvi fundar o centro em vez de ir às comunidades. Todo meu trabalho é estruturado para a formação de pessoas, tanto na área do artesanato como no da construção civil e da arquitetura. No mundo, e não só no Brasil, as escolas de arquitetura não conseguem transmitir outra maneira de construir a não ser a da alvenaria e do concreto armado. Isso representa o desastre. A exploração do minério de ferro e do calcário gera a destruição de muitos ecossistemas. A arquitetura não avançou na forma de se relacionar com os recursos renováveis.

Qual seu objetivo com o centro?

LV – Tenho domínio sobre o bambu e quero gerar influência sobre o novo pensar na construção civil para que deixem de erguer caixotes de concreto chamados de edifícios. As universidades não estão estruturadas para melhorar a arquitetura brasileira, ainda existe o glamour em cima do monumento, mas o maior monumento é diminuir o déficit de moradia e de aparelhos públicos para a educação. Esse é o legado que devemos deixar e não a obra de concreto armado. O Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, é um paradoxo. Falar de amanhã dentro daquela estrutura de concreto e ferro? É muito violenta a destruição que as mineradoras provocam, sem falar na gravidade das consequências com a exploração da matéria-prima e da mão-de-obra. Temos participado de algumas obras no país, mas o uso de materiais sustentáveis na construção civil é ainda muito tímido.

Obra realizada no parque Ekôa, em Morretes, no Paraná.

Que obras são essas?

Das mais expressivas, está a Escola de Culinária no Mercado Central de Belo Horizonte. Esse é um projeto de 2011 elaborado por Marcelo Rosenbaum com Fernando Maculan e a arquiteta Mariza Machado. Há também a cobertura para o espaço público dentro do parque ecológico EKôa, na cidade de Morretes, no Paraná, com projeto do arquiteto Tomaz Lotufo. Além de obras menores, como a intervenção no teto do restaurante Noah, em Maringá, do arquiteto João Vitor Ricciard Sardi, e luminárias para estabelecimentos de Belo Horizonte, como o Empório Santa Isabel, planejado por David Guerra e Laura Rabe, e o restaurante japonês Udon, projeto da arquiteta Isabela Vecci.

Como se estabeleceu a relação com a comunidade de Ravena?

LV – Em 2009, começamos a obra do conjunto, uma geodésica de bambu onde funciona o centro de capacitação, o restaurante, a biblioteca, os sanitários ecológicos e o viveiro. Em 2010, construímos o vínculo com a comunidade. São 10 mil habitantes e 50% da população é rural. Iniciamos o trabalho com a prospecção de formar e desenvolver a cadeia do bambu por 30 anos. Capacitamos as artesãs de Ravena para que a mulher possa mostrar seu brio. Com nosso trabalho social, queremos também reduzir os danos causados pelo machismo e pelo racismo.

Vocês fazem cursos também no centro…

Aqui, bancamos os trabalhos sociais, fazemos serviço de consultoria e temos quatro edições do nosso curso por ano, em janeiro, abril, julho e outubro. A primeira questão que eu levanto na aula é uma provocação: a arquitetura e o mundo esperam mais de você. São turmas pequenas de 15 alunos, que ficam hospedados sete dias e trabalham dez horas: oito horas de aula prática e duas de teórica e conceitual. O grupo ergue uma pequena obra, um cômodo que seja, cada pessoa vai projetar e executar um móvel, e executando o móvel começa a ter compreensão do que é o bambu na construção civil. O bambu é um material adequado às mulheres: flexível, fácil de manusear. Queremos capacitar as arquitetas e as artesãs, que substituirão os mestres de obras e os pedreiros. Minha intenção é gerar influência a tal ponto que as escolas e as universidades passem a adotar um ensino da bambuzeria nos cursos de arquitetura.

Isso é possível?

LV – Temos de redesenhar a paisagem comunitária e diminuir o déficit de moradia. Construções planas nas quais a família brasileira possa se envolver com o cultivo do bambu, mas não do bambu para grandes fábricas de laminados. O mundo acadêmico usa o material na mesma lógica da madeira. O cultivo deve ser no quintal, ter duas ou três touceiras e que os filhos possam construir suas casas. Preciso que entendam a arquitetura familiar, o acolhimento de uma população que está sofrendo pelo déficit de moradia e pelo déficit aparelhos públicos essenciais como creches. Essa ênfase social que estou propagando não existe na China, no Japão nem na Indonésia ou na Colômbia, que são países onde a tecnologia e a mão-de-obra do bambu já ganharam protagonismo social. A China pensa na industrialização do material, em pisos laminados, talheres, tudo industrializado. A China também pensa em monocultura, e estou propondo a civilização do bambu para dar um modelo ao mundo.  A lógica que eu imagino é a do bambu da subsistência, de um comércio que vai gerar renda localmente e, não, a ideia de produzir para milhares com fábricas de muitos empregados. Proponho uma nova relação com a natureza e de moradia.

Instalações da Escola de Culinária no Mercado Central, em Belo Horizonte.

Essas propostas têm alcance em outros países?

LV – Sim, e ainda mais com a internet. Meu trabalho com bambu tem eco nos países orientais, na Europa, na América do Sul. Nos relacionamos com núcleos que trabalham com bambu e divulgam e compartilham informações pelo Instagram e pelo Facebook. Tivemos aqui no centro alunos com formação em arquitetura da Suécia, da Itália, Portugal, França e temos desejo de trabalhar com bambuzeiros da Índia e do Vietnã. A tendência mundial do bambu é a do laminado colado, mas temos de valorizar a inteligência do bambu cilíndrico. O novo arquiteto projetará e construirá com as mãos. A profissão tem de se transformar, abandonando drasticamente o ferro e o concreto.

 

Quais as construções de bambu que podemos citar?

LV – Existem casos isolados no Vietnã de escolas construídas com o material, casas na Colômbia em bairros de gente rica. Assim como em Bogotá, há favelas feitas de bambu em vez de caixote e lata. A Colômbia tem mais tradição no uso do bambu nativo. Eu moro no centro de referência que é feito de bambu, com paredes de adobe. O bambu possibilita aspecto estético muito favorável, está sempre bonito, pode durar mais de um século com o tratamento adequado. Não pode ficar exposto às intempéries, e, por isso, precisa de um bom telhado com beirais grandes para preservar a estrutura. Precisa de braçadeiras de aço, ou amarrações com junco, por causa da dilatação. As fissuras são preenchidas com serragem de bambu e polímeros. Essa é a matéria-prima do futuro, e não podemos mais incentivar as fábricas de concreto e as mineradoras. A indústria pesada da construção civil é feita por magnatas, que estão pouco se lixando para o meio ambiente. Diante disso, só uma catástrofe mundial, como essa pandemia, para ver se as pessoas acordam. Já é mais do que hora de alcançarmos essa mudança e essa nova arquitetura.

 

E qual a reflexão que você faz desse momento trágico da humanidade?

LV – Procuro observar quais as lições que podemos tirar. Os seres humanos precisam se aproximar do trabalho manual, da agricultura, de voltar a gostar de plantar. Ficam em seus apartamentos tranquilos, apertando o botão da descarga como se o problema de saneamento não fosse com eles. Temos de voltar agora mais do que nunca à solidariedade. Isso não é dar esmola, dar um quilo de farinha, roupa usada…é acompanhar as pessoas em seu processo de vida, equilibrando as faltas e os excessos para que todas e todos tenham como viver dignamente. Precisamos reaprender a dividir, pois não existe meritocracia, isso é hipocrisia para não distribuir as riquezas do nosso país.

 

O centro foi afetado com a pandemia?

LV – Sim. Tivemos que cancelar as edições dos cursos e estamos evitando o trabalho nesse momento. Nossa missão agora é ajudar a construir um novo mundo, com bambu e a força da mulher negra. O coronavírus traz à tona a reflexão de como exploramos o meio ambiente. Definitivamente não podemos mais fechar os olhos e continuar premiando o concreto armado.

 

Veja abaixo o texto publicado por Lucio Ventania nas redes sociais que inspirou a entrevista:

“Não tenho privilégios. Nunca tive. Escolhi tecer meu próprio tecido. É com ele que me visto. Eu deveria pedir perdão porque, enquanto a humanidade se aflige, vivo os dias mais felizes da minha vida. Mas não vou pedir nada não. Vou, todos os dias, por dentro de uma floresta fechada, a uma cachoeira que fica a quatro quilômetros da minha casa. Caminho sobre as pedras de um rio de águas transparentes. Os pássaros me veem e se desfolham espiritualmente no vento sob o sol. Entendo que estou no paraíso. Talvez eu já tenha morrido de Covide-19 e não estou sabendo.  O que deve realmente importar é o novo mundo. No mundo novo, toda a atividade minerária, em todos os países, deve ser reduzida a dez por cento.”