Livro, com fotos de Cássio Vasconcellos, registra a história da Mata Atlântica, da sua origem a seus vestígios

Em 200 anos, a floresta passou de 80% a 11% do território nacional.

O botânico Ricardo Cardim realiza um sonho: publicar o livro que reúne a pesquisa de uma vida inteira. Interessado por plantas desde menino, ele transformou o interesse em profissão e se tornou um dos mais respeitados profissionais de sua área. Em Remanescentes da Mata Atlântica: as grandes árvores da floresta original e seus vestígios, ele relata, em 344 páginas, como essa biodiversidade nativa foi devastada ao longo dos anos e dá exemplos de como sua madeira se transformou em mobiliário e elementos de arquitetura. Para realizar as pesquisas, Cardim viajou a seis estados –  Alagoas, Bahia, Espírito Santo, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, em busca de dados e imagens das maiores árvores ainda existentes. O fotógrafo Cássio Vasconcellos e o botânico Luciano Zandorá foram parceiros dele nessas expedições.

Produzido em parceria com o Museu da Casa Brasileira (MCB), o livro, editado pela Olhares, frisa a relação da paisagem com a cultura material, em busca de uma melhor compreensão sobre a produção feita pelo homem e sua relação com os recursos naturais. O lançamento do livro acontecerá no museu em 27 de novembro, às 19h. Abaixo, leia a entrevista com o autor, feita numa de suas visitas a Olhares para revisar a publicação.

Você afirma que o livro é único nesse segmento, por quê?

Desde a infância, eu sempre quis comprar um livro como esse e nunca encontrei. Embora tenhamos muitos livros sobre a Mata Atlântica, em geral, eles são: ou ensaios de fotógrafos ou livros mais técnicos com informações acadêmicas ou governamentais. Não temos livros que contam a história dessa floresta, como era ela no passado, quais os primeiros registros, como eram essas imagens. Não há também dados de como foi o processo de transformação. Como a floresta que tinha 80% da sua área 200 anos atrás se transforma em 11%? Isso foi uma epopeia e não temos registros em livros, fotografias e museus. E o que sobrou? Se não conheço o passado, eu não consigo entender o presente. Todas essas perguntas e percepções levaram a essa publicação, que procura apresentar a Mata Atlântica original, sua transformação e o que sobreviveu dela, para que possamos estabelecer uma opinião.

Qual sua intenção com o livro?

Além de preencher uma lacuna de conhecimento até hoje não abordada, pelo menos não com essa profundidade, ele planta uma semente para o futuro Museu da Mata Atlântica. Como num país com a maior biodiversidade do planeta, que chega a ter mais de 450 árvores diferentes por hectare, não tem um museu que conte isso para nossas crianças, para as futuras gerações? O livro é um modo emergencial de perenizar um pouco dessa pesquisa e desse conhecimento, que hoje está espalhado em arquivos públicos e privados, alguns deles obscuros e vulneráveis. Encontramos fotografias em garagens, em situações terríveis e, ao menos, temos esse conhecimento tombado em 3 mil exemplares, mas, é lógico, que um dia isso tem de virar museu. Esse livro vem preencher um espaço deixado de lado na história da natureza. Tivemos um autor fantástico, o Warren Dean, autor de “A Ferro e Fogo: a História e a Devastação da Mata Atlântica Brasileira”, o melhor livro sobre esse tema até hoje, mas é um livro teórico e sem ilustrações. Já o Remanescente traz esse imaginário visual, além de minhas percepções, meus pensamentos e entendimento sobre a Mata Atlântica.

Como foi o desenrolar dessa pesquisa?

Esse trabalho eu faço desde quando me conheço por gente, adoro o assunto. Adoro também frequentar, pelo menos uma vez por mês, sebos, no centro de São Paulo, com áreas de Botânica. Fui encontrando muita informação em instituições públicas, foi um trabalho de construção demorado, mas, na hora que eu consegui o recurso para o livro e a exposição no Museu da Casa Brasileira, eu pude me aprofundar muito mais, foi um verdadeiro garimpo, uma caça ao tesouro, porque não existem coleções organizadas sobre o tema. Numa coleção de fotografias do século 19, entre 200 fotografias, você encontra uma que retrata a Mata Atlântica. Muitas delas mostravam a floresta cortada ou tirando as árvores, muitas iconografias podem parecer retrato fiel da realidade, mas o botânico sabe que tem fantasias europeias dentro da floresta, tem carvalhos europeus misturados a espécies tropicais, e até pássaros estrangeiros, muitos desses desenhos eram feitos aqui e enviados para Europa a serem finalizados, e ninguém lá imaginavam o que era essa biodiversidade. Por isso, encontramos muita coisa equivocada, até alguns livros atuais trazem esses equívocos como verdadeiros. Tudo isso foi gerando uma massa crítica e o livro é o resultado disso. O Ricardo que pesquisou durante 30 anos pode dizer que está satisfeito. Tem mais coisa para ser revelada? Tem sim, mas o principal está aqui, contado o que era a floresta original e sua transformação.

Como seria o museu que você citou?

Adoraria ver um dia um museu como o belíssimo trabalho do Emanoel Araújo no Afro Brasil, um dos mais ricos do país. Ter um museu desse porte e desse nível da Mata Atlântica é um sonho. Infelizmente, tivemos visões distorcidas, fazendo museus enormes e queimando outros. e a Mata Atlântica, como um dos maiores patrimônios do Brasil, merece essa instituição. Considero ela mais importante do que a Amazônia, e isso que estou dizendo é polêmico, porque ela está no território onde vivem 60% dos brasileiros. Foi inteiramente destruída, sobraram 11%, o que é nada, e desses 11% são raríssimos os locais com árvores preservada. Temos uma dívida histórica como essa floresta. Imagino nesse museu fotografias, documentos, pedaços de árvores que caíram com a idade, uma serraria com ferramentas e artefatos de devastação, uso dessas madeiras. Contar a história por meio do material e do imaginário.

Veja também a matéria publicada na Folha de S. Paulo:

https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/09/expedicao-encontra-ultimas-arvores-gigantes-da-mata-atlantica-veja-fotos.shtml 

A publicação contempla várias fotos históricas garimpadas pelo botânico em museus e até em acervos guardados em garagens.

Das árvores gigantes, com alturas que podem chegar a 64 m, restaram poucos exemplares.

O botânico Ricardo Cardim, autor do livro: “Estou realizando um sonho de infância, um livro que eu sempre quis comprar”.

Remanescentes da Mata Atlântica: as grandes árvores da floresta original e seus vestígios já está sendo vendido no site da Editora Olhares com 20% de desconto até o dia 26 de novembro. O lançamento do livro acontece no dia seguinte na sede do Museu da Casa Brasileira.