Na loja aberta em agosto, os designers cariocas contam suas histórias

No showroom da Lattoog, é possível encontrar peças como a poltrona Basket, à esquerda na foto, e a mesa de centro São Cristóvão com estrutura de metal.

Eles inauguraram showroom próprio em plena al. Gabriel Monteiro da Silva (248), eixo da decoração na capital paulista conhecido como Upper Gabriel. Pedro Moog se mudou de vez para a cidade, enquanto Leonardo permanece na ponte-aérea entre São Paulo e Rio, onde reside. Num prédio de linhas puras, a dupla de designers ocupa com seus móveis o primeiro piso do imóvel, dividido com a empresa Diagonale.  Nesta entrevista, Leonardo conta os motivos pelos quais decidiram ter uma sede em São Paulo e como fizeram para não se indispor com os lojistas que vendem suas peças.

Por que vocês decidiram abrir showroom em São Paulo?

A gente já tinha aberto há dois anos um showroom de venda direto ao cliente no Rio de Janeiro. Esse espaço fica numa zona industrial, em São Cristovão, junto ao nosso ateliê e achamos a experiência bastante interessante. Conseguimos reunir parte dos produtos e contar nossa história, mostrar nosso conceito com mais clareza. Nas lojas, isso fica mais diluído e misturado com as peças de outros designers. A experiência foi positiva e decidimos estender a ação para São Paulo, que tem o maior mercado do Brasil, além de ser uma cidade que a gente adora.

O que se vê no showroom?

A primeira coisa é nossa mensagem, nosso modo de pensar. O entendimento da nossa narrativa é o que mais importa no trabalho, o que está por trás do produto e o valor cultural que ele tem. Costumamos citar a quarta dimensão do objeto, assim que a gente gosta de ser percebido.

E o que isso significa?

A gente vem usando esse termo há alguns anos para definir nosso trabalho. As três dimensões são as que percebemos com os olhos. A quarta é a que não pode ser vista, é o valor conceitual, a narrativa de como a peça foi criada e suas referências. Digo o que a cadeira significa e não o que ela aparenta. É um conceito presente na arte e não muito no design.

Dá para exemplificar?

Uma peça pode ser esteticamente agradável e confortável, mas conjugada com as questões industriais, ela também pode não gerar resíduos na produção, ser de fácil fabricação ou não, usar tecnologia. Além disso, há a nossa narrativa da cultura brasileira, da miscigenação, das referências à arquitetura. Na loja, reunimos os móveis seriados e as peças únicas, de arte e design. Temos quadros e esculturas feitos com os resíduos da produção e dos protótipos. Tudo isso são histórias que queremos contar.

Ter um showroom próprio não cria conflito com os lojistas?

Estávamos bastante preocupados com essa questão, pois há 15 anos nosso formato de negócio tem sido as parcerias com os revendedores e alguns até fora do Brasil. Surpreendentemente, aconteceu o oposto. Nesses primeiros meses, a demanda de lojas e dos revendedores foi crescente, até mesmo com os lojistas da Gabriel. Eles perceberam que o fato de termos nosso próprio espaço só reforçou a marca Lattoog. Contratamos um funcionário, aliás, para responder as mensagens dos clientes e redirecioná-los às lojas que vendem nossos produtos. São mais de 200 itens, alguns exclusivos e outros desenhados para fábricas específicas.

Comprando com vocês, o preço é mais acessível?

Hoje nosso diferencial não é ser mais barato nem mais caro do que nossos revendedores. A diferença é a que já mencionei: termos a chance de mostrar nosso produto da nossa maneira e trocar ideias. Em conversas com arquitetos surgem adaptações de móveis, o que não aconteceria na venda convencional. Alguns produtos nasceram a partir dessas conversas.

O livro sobre a obra da Lattoog ajuda vocês a contarem essas histórias?

Certamente. Nossa percepção do trabalho ficou mais clara durante o processo de compilação do material para a publicação. Foram dois anos de pesquisa nos quais tivemos de fazer autocríticas e autoanálises. Isso ajudou a ampliar o conhecimento sobre nossa produção. O livro, editado pela Olhares, acabou ganhando prêmio no Museu da Casa Brasileira no ano passado. Mais um reconhecimento que nos motiva seguir adiante.

Fotos: Anderson Timóteo.

Poltrona Pantosh e Moleco, triangular, estão disponíveis na loja. Ambas são parte da coleção Viralata, composta de peças que resultam de cruzamentos entre móveis ícones do design nacional e internacional.

Arte feita com resíduo de matéria-prima também ambienta a loja, assim como a poltrona Ipanema, inspirada nos calçadões de pedras portuguesas da praia carioca.

Leonardo Lattavo e Pedro Moog na Pantosh gigante que foi exibida em Milão e agora está no terraço do novo showroom em São Paulo.