Considerado o príncipe do material pela revista Time, o designer volta a São Paulo depois de sete anos

A jornalista Regina Galvão entrevista Karim Rashid na loja da BoConcept, ao lado de Beto Cosenza, idealizador do Boomspdesign e responsável por trazê-lo ao Brasil com a BoConcept e o Club&Casa. Foto: Claudia Spina

Nascido no Egito e criado no Canadá, Karim Rashid já desenhou cerca de 4 mil produtos e soma 300 prêmios, sendo um dos designers mais produtivos de sua geração. Esbanjando jovialidade aos 60 anos, ele realizou uma palestra, organizada pelo Club&Casa com o Boomspdesign. Esteve também na BoConcept, loja inaugurada na al. Gabriel Monteiro da Silva, para lançar uma linha de móveis. Usando branco até nas unhas – cor favorita assim como o rosa, ele concedeu entrevista na qual falou de família, plástico, originalidade e projetos atuais: 17 hotéis, oito edifícios e dezenas produtos.

O arquiteto Ruy Ohtake esteve presente no evento da BoConcept, no qual Karim lançou a coleção Chelsea.

Por que você veio ao Brasil desta vez?

Karin: Eu vim por causa do Boomspdesign, do Roberto Cocenza, e do Club&Casa, do Thiago Sodré. Eles me convidaram para dar uma palestra num evento. A primeira vez que eu estive aqui foi em 2002, depois, vim todos os anos até 2013 e nunca mais, pois não havia projetos e oportunidades, mas eu continuo falando com muitos arquitetos brasileiros. É bom estar de volta em São Paulo, mas estranhamente parece que nada mudou. Hoje eu andei por São Paulo e vi os os edifícios de Niemeyer, a Oscar Freire, algumas outras ruas, e tudo parece o mesmo. Até o Hotel Unique, onde me hospedei pela primeira vez em 2002, há 18 anos, também continua o mesmo.

Você tem obras importantes em design de interiores e design de produtos. Quais são as novidades nessas áreas?

K: Bem, o design do produto está centralizado na China. Então, eu abri um escritório na China, há quatro anos. E, nesse escritório, eu só faço design industrial … 18 designers trabalham comigo. Desenhamos telefones celulares, robôs, máscaras de gás, todos os tipos de produtos industriais, que é minha paixão e como eu comecei.

Mas você continua com o escritório em Nova York?

K: Sim. Em Nova York, projetamos mobiliário, arquitetura e interiores, gráficos e marcas. Acabei separando assim minhas atuações. O fato é que o design industrial tende a ir aonde o fabricante está. Se você não está na China, não recebe projetos.

Sério?

K: Sim, realmente o negócio mudou muito. E no design de interiores também. Quando me formei, fui para o mestrado na Itália, onde não havia curso de design em 1984. Havia apenas a universidade de arquitetura ou o curso técnico, não havia escola de design de interiores. Você imagina? Até 84! E naquele ano, eles abriram a Domus Academy e outras escolas. No Canadá, onde me formei, havia apenas três universidades para desenho industrial. Hoje, são 20 escolas, nos Estados Unidos havia 10, agora existem 50. São muitos designers, e não há trabalho suficiente para todos.

Isso é um problema…

K: Sim, e o segundo problema, não é realmente um problema, mas é uma realidade: o Pinterest e o Instagram, todas essas imagens que temos. Muitas empresas não contratam mais designers, porque quase conseguem fazê-lo por si mesmas. Especialmente quando se trata de redecorar.

Itens da linha Chelsea para a marca BoConcept, com loja na al. Gabriel Monteiro da Silva, em São Paulo. 

Para qual empresa você está trabalhando?

K: No mundo? São 200 empresas. Eu trabalho com muitas pessoas. Acabei de terminar o celular com a Opal, os aparelhos para a Gorenje, minha linha de misturadores, torradeiras e outras coisas com a Carrera. Eu fiz tantos produtos!

E para a BoConcept? Você está projetando algum produto?

K: Sim, estamos trabalhando novas peças para os próximos anos.

Quais peças?

K: Este sofá Chelsea (apontando para a peça na TV) acabou de ser lançado. Eu não posso liberar tudo… a BoConcept é bem reservada sobre isso…

Peças da coleção Ottawa, premiada com o Red Dot Award

E a coleção premiada?

K: A primeira coleção, a Ottawa, teve o conjunto de jantar premiado no Red Dot Award. A cadeira é o produto de maior sucesso. É gratificante ser designer. Você sabe que o produto deve ser perfeitamente confortável e precisa ser fabricado com perfeição, mas, mesmo com tudo isso, você não sabe por que às vezes ele se torna bem-sucedido.

E no design de interiores, o que você está fazendo agora?

K: Dezessete hotéis ao redor do mundo, oito edifícios. Estou fazendo um hospital, muitos escritórios e condomínios… alguns restaurantes, resorts … um resort com 700 quartos em Punta Cana … 3680 apartamentos na África do Sul, é um projeto enorme. Estou fazendo um shopping na Arábia Saudita. E em Israel, um hospital, dois hotéis e um condomínio.

Cenas do hotel Petasos, na Grécia. 

Com tantos projetos como você faz para ser original nesse mundo tão globalizado?

K: Isso realmente é importante. Continuo insistindo com arquitetos e designers sobre tentar criar algo original neste mundo.  Na arquitetura e no design de interiores, podemos criar algo mais original. Se você está fazendo um espaço, um restaurante, ele deve expressar algo. Somos todos muito diversos, com diferentes culturas, diferentes desejos, todas essas coisas e, no entanto, o mundo está parecendo o mesmo.

Por que você acha que isso acontece?

K: As tendências são tão fortes e poderosas que a maioria se preocupa com elas. Isso é triste, porque a era digital fortalece a individualidade. Isso lhe dá uma voz, e essa globalização é tão inspiradora em tantas coisas… mas não entendo por que você desenha um café como qualquer outro. Há três anos, eu estava fazendo um restaurante em Atenas, outro em Kiev, na Ucrânia, e um em Nova York. Perdi todos os projetos, porque os três clientes queriam esse visual que eu chamo de “revolução industrial”. Você faz o lugar parecer uma fábrica, com destroços expostos, banquinhos de metal muito desconfortáveis… isso é estilo, não é design. Está acontecendo no mundo, mas eu simplesmente não faço, porque esse não sou eu. Não estou interessado. E há tantos designers de interiores apenas repetindo isso. Não há nada original. Então a pergunta é: como? Como você produz algo original? Você tem todas as oportunidades para mostrar um projeto original que venha do seu intelecto e da sua alma. Então, por que estamos repetindo esses interiores globalmente?

Você morou em várias cidades diferentes do mundo. Como isso afeta seu trabalho?

K: Quando eu era criança, nos mudávamos muito e eu estava tão acostumado a estar em todos os lugares que nunca tive um desejo: preciso ter quartos, sabe? Até em Nova York, eu realmente não tenho casa. Eu comprei um apartamento que parece um quarto de hotel. No ano passado, eu estive 220 noites no hotel, imagine. Então, tenho uma casa por causa da minha filha. Não faço mais nada em Nova York: apenas vou ao meu escritório, vejo minha filha e já está na hora de voar novamente.

Mais um projeto de hotel, este na Alemanha, de nome Prizeotel.  

E como é na China?

K: É assim em todo lugar, mas eu gosto. Isso obviamente tem a ver com nossos anos de formação como crianças, o que certamente nos molda. Meu pai era do tipo nômade. Ele deixou o Egito, foi para Roma, trabalhou na Cinecittà, em um filme … trabalhou com Antonionni … fez cenografia… quando teve uma exposição em Paris , mudamos para lá. Minha mãe quis voltar para a Inglaterra, ela é britânica, depois fomos para Londres, e meu pai teve a oportunidade de trabalhar para a televisão CBC no Canadá. Mudamos para Montreal. E foi fácil, foi divertido… está no meu sangue a idéia de correr por aí.

Você já foi chamado de o Príncipe do Plástico, e o plástico é vilão hoje em dia…

K: Vilão? Seu telefone é plástico, provavelmente seus sapatos são de plástico. Se o plástico é um vilão, nunca viveríamos como estamos vivendo. Setenta por cento de tudo o que é usado no hospital é polímero. O avião, os novos aviões são 70% de polímero, plástico. O carro que você dirige é 60% de polímero. Então é ingênuo e ignorante dizer: “Oh, o plástico é ruim, o plástico é o vilão. O que precisamos fazer na indústria do plástico, o que, aliás, está acontecendo, é converter e começar a encontrar plásticos responsáveis versus plásticos tóxicos ou plásticos não biodegradáveis ou não recicláveis. Estamos fazendo isso agora. E muito rápido, a propósito. Então, eu gosto de plástico.

Karim Rashid é mundialmente conhecido por seu design ousado e colorido. Nessa galeria, imagens do Hotel Rain Punta Cana (fotos 1 e 2) e o Rashid Al Khalifa, em Bahrain (fotos 3 a 5), no Oriente Médio. 

Você está pesquisando sobre essas novas possibilidades?

K: Sim, e muito. Eu amo todos os novos polímeros, tenho tentado usá-los por 15 anos. Sabe a Braskem (empresa petroquímica brasileira)? Eles desenvolveram há 9 anos um polietileno derivado de açúcar no Brasil. O primeiro do mundo. Dois anos depois, eles fizeram o polipropileno derivado de açúcar. A Braskem foi brilhante, e eles enviam esse polímero para todo o mundo. Então, esse é um tipo de novo polímero e eu quero trabalhar num projeto com eles. Já os encontrei três vezes, eles me conheceram em Nova York. E minha sugestão foi para que eles projetassem uma cadeira moldada por injeção. As cadeiras poderiam ser vendidas a varejo por 30 dólares. Poderíamos fazer nas ruas uma palestra, com 3 mil cadeiras, e as pessoas podiam usar cadeiras. Isso não seria divertido? E eu quero chamar a cadeira de “Sugar”. As ferramentas para fabricar uma cadeira moldada por injeção de plástico são mais ou menos atuais … hoje na China é muito mais barato, talvez 6 mil euros. Naquela época, quando eu falava com eles, eram 100 mil euros, então eles fugiram. Nossa última conversa por correspondência foi há 5 anos. E eles estão bem aqui, nesta cidade, é uma empresa brilhante, então, essas são as novidades com o plástico.

Na Holanda, ele também soma alguns projetos, como este apart hotel.

Como você vê o futuro do design?

K: Se eu apenas quiser falar sobre tendências, falaria do minimalismo. A diferença do minimalismo de antes e o de agora é que o novo minimalismo é impulsionado mais pela tecnologia, e acho que é mais humano. Como este sofá em que estamos sentados, podemos argumentar que é um objeto muito minimalista. Mas de alguma forma, talvez por causa do tecido ou da estruturação, parece mais confortável, porque é difícil conviver com o minimalismo puro. A maioria das pessoas não consegue.

Seu design é muito orgânico …

K: Eu chamo isso de sensual. Acho que é uma tendência, e a segunda tendência é cor. Mesmo grandes arquitetos que se recusavam usar cores estão construindo edifícios coloridos. Estou começando a ver MVRDV (escritório de arquitetura holandês) e Haulin em rosa em um dos prédios. A cor estava distante desses caras, mas começa a acontecer. Eu venho insistindo nisso há 35 anos. Outra tendência, obviamente, é do material que usamos nas ruas, nos projetos de interiores… deve ser responsável, de alguma forma reciclável, biodegradável … não podemos mais ter material tóxico. Essas, para mim, são as verdadeiras tendências.