Designer catarinense lança 60 novos produtos entre móveis e luminárias outdoor, indoor e para projetos especiais

Renata Larroyd.

Já virou tradição na agenda de março reservar a data dos lançamentos de Jader Almeida para a Sollos, em São Paulo. Mais uma vez, eles montaram, numa antiga fábrica na Vila Leopoldina, o showroom de 3 mil m² com arquitetura assinada pelo arquiteto e designer para apresentar a coleção 2020. São 60 novas peças que reunidas a outras do portfólio somam mais de mil itens expostos. Conversamos na semana passada com Jader em seu Showhouse, antes de ele decidir fechá-lo para visitação em razão da pandemia do coronavírus. A data para reabertura ainda não foi divulgada.

Felipe Araújo e Juan Guerra. 

Jader, achei esta coleção mais poética, mais solta. Qual foi sua inspiração?

Jader Almeida – A coleção é sempre uma continuidade dos anos anteriores. Os produtos são palavras que contam histórias e, a cada ano, vamos agregando peças. Não acho que ela esteja fora da curva, acho que complementa o todo. Aqui, no showroom, são mais de 3 mil m² e você não sente fadiga no olhar, você vai andando e encontrando pequenas surpresas, pequenos detalhes…o todo cria uma eloquência acentuada. Trouxe neste ano a mesa de jantar Boule, de mármore, que tem tampos em três geometrias que se encaixam, se separam e podem ser reinterpretadas. A mesa Puzzle é todo um trabalho de madeira, com pés cilíndricos. Esses acabamentos são de uma engenharia fantástica, um resultado único. Então, essas peças adicionam uma nota a mais nessa sonata. Isso vai criando as camadas. A jornalista Mara Gama, no texto que fez do meu catálogo, e isso já tem cinco ou seis anos, escreveu que o design de Jader Almeida é para ser saboreado em camadas: de longe pode parecer uma coisa, mas quando se aproxima é outra, e quando toca é ainda outra percepção, e quando se vai percebendo os detalhes, você consegue sentir sua profundidade. Se alguém me perguntar: que tendência você segue? Como você define seu estilo?  Respondo: elegância! O Jader (falando de si próprio) criou a mesa Dinn: longa, com 4 metros, superfina…daí veio a Bank, de mármore, e isso criou uma escola. Antigamente eu tinha pudor de falar, mas é só olhar para trás e ver a cronologia de quem fez. Você percebe quem é a voz e quem é o eco. Isso para mim é desafiador, como indústria, com empresa, como designer.

Felipe Araújo e Juan Guerra. 

A cadeira Basso surpreende, ela se destaca entre as novas peças…

J.A. –  Ela nasce por causa da marca Sollos Outdoor. Nas namoradeiras e mesas, que já têm 14 anos, na chaise Garden, lançada em 2006, e na Bunni, também de 2006, nós fizemos uma tentativa de ter uma coleção outdoor, mas percebemos que não tinha consistência suficiente e deixamos de stand by. No ano passado, comercializamos a coleção como uma marca, do ponto de vista de gestão comercial, para que todo o espaço fosse vendido como marca e não como produto. Reunimos tudo, e, nesse contexto, entra o assento Basso. A ideia do tronco é muito recorrente em vários lugares, você corta um tronco para usar como banco. Mas, quando usa a CNC, o tronco já começa a ter outra cara, outra ergonomia. Depois, entra um elemento industrializado como o alumínio e se funde com esse elemento de perfeita imperfeição: rachaduras, fissuras de um possível inseto, manchas… imperfeições que formam o conceito do produto e o equilíbrio entre o natural e o industrial. Talvez seja isso que choque as pessoas e eu noto realmente que ela está sendo muito observada.

Felipe Araújo e Juan Guerra. 

Como se comportam as outras peças?

J.A. – Surpresa é o que mais define essas peças, não digo bonita porque padrão de beleza é relativo. São sofás de forma orgânica, que exibem sensualidade por essas curvas, arcos, sem que nada acabe numa secção abrupta. Isso tudo vai te envolvendo, como as mesas e cadeiras que são minha maior especialidade. As cadeiras são perfeitas em todos os detalhes como nas curvas dos encaixes que se juntam e vão criando esculturas. Daí, então, chegamos na iluminação e aquela (apontando para o abajur Pan) subverte a ordem. A luz sai da haste com essas pequenas intervenções e com uma prolixidade de materiais, vidro, pedra, acrílico, todos trabalhados em uma execução primorosa.

Felipe Araújo e Juan Guerra. 

Você introduziu o papel no portfólio.

J.A. – Tramas de papel já vêm sendo utilizadas no mercado há tempos, mas agora lançamos um novo olhar com tramas distintas. A corda náutica também é muito comum, usada em todo lugar, mas a nossa abordagem está sempre no ponto da elegância, da delicadeza, no bem feito. Nossa equipe trabalha na seleção de materiais, no desenvolvimento constante. Pesquisamos na nossa materioteca e assim vamos criando esse moodboard dos próximos produtos. Os materiais precisam se harmonizar e o papel traz o toque natural em parceria com a madeira tratada com óleo de essência de rosa. Tudo isso vai fazendo com que a pessoa descubra o produto com as mãos e essa comunicação é muito importante: a questão natural, o toque agradável, isso vai permeando todas as etapas.

Felipe Araújo e Juan Guerra. 

Tive a impressão de a nova cadeira Olive ser prima da Clad, você faz essa leitura também?

J.A. – Não é impressão, é isso mesmo. A Olive tem pés de metal e encosto de madeira. É uma peça que tem DNA dos formatos dos assentos anteriores, mas também acrescentam algo a mais… cria outra estrutura e dá suporte a esse encosto generoso. Além disso, conforme o tratamento da madeira, parece um veludo, mas, quando se toca, percebe-se o material sólido e natural. Esse resultado é Jader Almeida, leva esse tempero. Considero que a Sollos faz joias, não cadeiras. A pessoa que compra a peça, compra porque deseja, não porque precisa. A poética é acentuada e essa poesia é ainda mais comercializada por causa da execução precisa e muito bem feita. A qualidade do toque do couro, as cores, a densidade, o desenvolvimento das texturas das madeiras, das pedras, o tratamento dos metais… essa riqueza cria esse contexto. A direção dos materiais é uma parte da história, a arquitetura é outra parte, a experiência, outra parte, mas quando você reúne tudo, cria essa profundidade. Uma profundidade louvável, muito tranquila e natural onde nada grita. Uma profundidade que transmite segurança para as pessoas.

Visitando o showroom, observei mais flores e cores nos ambientes. O que mudou?

J.A. – Não sei dizer. Talvez tenha mesmo, se você percebeu. Nesse caso, tudo flui com naturalidade, vai acontecendo sem muita programação.

Felipe Araújo e Juan Guerra. 

A Sollos está lançando 60 novas peças, bastante para apenas um ano de criação, não?

J.A. – Há peças que já estavam em desenvolvimento. No ano passado, lançamos três ou quatro. Muita coisa ficou pendente porque ainda não havia viabilidade fabril. A coleção de luminárias Soho, que demandou bastante desenvolvimento, tem muitas peças. Também estou lançando o sistema Arbo, que eu já tinha exclusivo nas minhas lojas. Inúmeros itens estavam sendo comercializados, mas não estavam no portfólio. A partir disso, alcançamos essa consistência… o para-sol Bird, apresentado pela primeira vez na Casa Cor Rio, é um exemplo.

Foi um pedido da arquiteta Gisele Taranto para o ambiente da mostra no Rio de Janeiro, certo?

J.A. – Nós fornecemos as cadeiras, as mesas, tudo era Jader, mas faltava um para-sol e eu não pretendia fazer algo em formato de guarda-chuva. Foi um desenvolvimento incrível, a toque de caixa, mas sensacional. Os protótipos estavam no Rio e eu demorei uns seis meses para colocar tudo no lugar correto, da maneira correta, com todas as questões técnicas prontas para ser lançado no mercado.

Felipe Araújo e Juan Guerra. 

O Salão do Móvel de Milão teve de ser adiado por causa da pandemia do coronavírus, o que vocês planejavam apresentar no Fuori Salone?

J.A. – Sempre apresentamos o que foi lançado no Brasil. De maneira mais reduzida, é claro, por questões de logística e investimento. No ano passado, foi quase uma demência encapar todo aquele palácio gigantesco, levamos três ou quatro contêineres. O cancelamento atrapalha, mas nosso maior mercado continua sendo o doméstico. Outro agravante foi ter as visitas canceladas de alguns parceiros, como os de Hong Kong, que viriam a São Paulo para encomendar as peças. Clientes do México, de Vancouver… todos cancelaram.

O que vocês estão pensando em fazer para contornar essa situação?

J.A. – Tudo é muito recente e incerto, logo depois de Milão vem a ICFF (a feira decidiu nesta semana cancelar a edição 2020), em Nova Iorque. Tivemos uma reunião com nosso parceiro nos Estados Unidos e é muito provável que declinemos. Aqui, no Brasil, hoje, tudo isso é muito recente e não sabemos o que vai dar. Mas a questão para nós já bateu. Essa coloração do vidro não é a correta (apontando para uma das luminárias). Desenvolvemos os componentes na China, mas eles não chegaram, então, tive de fazer de uma maneira provisória porque o mundo todo depende da China. Do nosso lado, estamos razoavelmente tranquilos por termos um mercado bem estruturado e o Brasil ser uma economia, em tese, fechada, não blindada. Mas terá efeitos colaterais? Sim. Teremos problemas? Sim, mas não conseguimos ainda dimensionar. Talvez o maior impacto seja a elevação do dólar porque muitas das nossas matérias-primas têm origem importada: espuma e madeira americana. Colas, tintas e outros materiais vêm da Itália. Alguns tipos de parafusos e componentes vêm da China. É uma colcha de retalhos.

Felipe Araújo e Juan Guerra. 

Você em algum momento para de pensar em design?

J.A. – Estou sempre pensando, nunca paro, mas não é só fazer design. Tem a gestão da indústria, o comércio, as parcerias com profissionais, projetos, pequenas customizações para um shopping…tem os pedidos exclusivos. Há questões da Sollos Contract (plataforma que visa atender projetos de escalas variadas) que demandam soluções específicas. Este chandelier (aponta para um enorme lustre na área de atendimento do showroom) foi uma demanda da nossa loja de Salvador. Um escritório suíço fez o restauro de um conservatório de música na cidade e sugeriu um grande candelabro de 3,5 m de diâmetro. A partir disso, desenvolvi, instalei e fiz a coleção, que veio como o desdobramento de uma técnica. A partir dessa demanda nasceu uma coleção.

O que falta você fazer?

J.A. – Um barco, um avião….

Felipe Araújo e Juan Guerra. 

Sabe dizer quantos produtos já desenhou?

J.A. – No último levantamento, contamos 500 produtos. O desenvolvimento na Sollos é constante, tudo está sempre alimentado esse pipeline, esse grande funil de onde sai a essência. Na área de iluminação há muitos desenhos, testes, materiais. Em outubro, começo a juntar tudo e esse é o processo criativo que se viabiliza porque é verticalizado: tudo é Jader Almeida, não há uma demanda externa. Como tenho essa continuidade, há muitas coisas na prateleira para ainda colocar nas futuras coleções.