De 14 de março a 17 de maio, a mostra celebrará a trajetória dos 35 anos da dupla no MAM

Foto: Bob Wolfenson.

Depois de ocuparem em 2017 o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, Fernando e Humberto Campana se preparam para tomar outro importante edifício da arquitetura brasileira: o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-Rio), obra modernista do arquiteto Affonso Eduardo Reidy (1909-1964), no Flamengo. Sob o título “Irmãos Campana – 35 revoluções”, essa será a maior exposição dedicada aos designers, com instalações inéditas e obras desenvolvidas ao longo das últimas décadas. “Queremos deixar mensagens, tocar o coração das pessoas pelo design e pelas questões ambientais abordadas”, afirmou a dupla em entrevista exclusiva.

Foto: Reprodução/Instagram.

“O MAM é um espaço arquitetônico interessante, sempre quisemos fazer algo aqui. A exposição demonstra um certo conflito entre nosso trabalho e as linhas modernistas do edifício.”

Imersiva e provocadora, a mostra se estenderá pelos 1,8 mil m² do segundo andar do museu com seis grandes instalações e um conjunto de mais de cem peças, nas quais sobressaem questões como a capacidade de integrar referências artesanais e industriais à produção, a ousadia formal e material, o intenso flerte com o surrealismo e a acentuada preocupação ambiental.

“A curadoria é focada em nosso lado de artístico, mais plural e cenográfico. São seis espaços temáticos: pensamento, amor, sonho, metamorfose, segredo e tempo.”

A proposta da curadora italiana Francesa Alfano Miglietti foi definir diferentes núcleos, mesclando leituras afetivas e conceituais. “Arte e design, para os irmãos Campana, não é um conceito de museu, mas uma concepção estética revolucionária na qual a arte se torna prática comum, capaz de melhorar o relacionamento do homem com o mundo”, diz ela.

“Diferentemente da exposição de Curitiba na qual usamos plástico fluorescente, nesta mostra estamos empregando materiais naturais, como palha, terracota… é uma exposição de histórias, afeto, carinho e com as novidades de nossos trabalhos individuais. As peças não estão reunidas por cronologia ou analogia de linguagem. Elas pretendem contar essa nossa história em 35 revoluções.”

Logo na entrada, o visitante encontrará uma parede de cobogós formada por cerca de 1,6 mil tijolos terracota vazados, que têm a mão aberta como elemento de repetição, sinal de alerta e saudação. A estrutura, que remete à arquitetura vernacular nordestina, pontua a capacidade da dupla de incorporar e reinventar elementos típicos da cultura brasileira.

“Estamos fazendo a cenografia em parceria com a Spectaculu, do Gringo Cardia e da Marisa Orth (escola, no Rio de Janeiro, sem fins lucrativos para jovens de baixa renda). A gente uniu forças, e isso hoje em dia é muito importante. Porque a gente pensa: fazer exposição para quê e por quê? O design pode ir além e resgatar a autoestima das pessoas. Eles estão colaborando conosco, construindo os cenários, e nós contribuindo com eles, oferecendo mais trabalho a esses jovens.”

As intervenções se espalham pelo andar do museu, como o gigantesco painel intitulado Pele, estrutura que combina painéis de madeira, argila expandida e tela de galinheiro e deriva do desejo de criar novas formas e estruturas para projetos de paisagismo; ZigZag, com um mosaico de estruturas na forma de gotas, em diferentes tamanhos, recoberto de fios de um intenso verde-limão, vestindo o teto do espaço expositivo; e um cinema forrado de tecido dourado com sedutores pufes negros, para exibir a história dessa parceria.

Foto: Regina Galvão.

“A instalação da floresta é uma metáfora por mais árvores, um alerta sobre a questão ambiental.”

O efeito cênico, idealizado em parceria com a Spectaculu Escola de Arte e Tecnologia, traz ritmo à exposição com mais de uma centena de torres de palha de piaçava. As estruturas – que foram mostradas, em menor escala, em 2019, na Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, em São Paulo – sugerem caminhos e permitem a aproximação do público com os núcleos poéticos que organizam a exposição.

“Teremos trabalhos novos, como a poltrona feita com embalagens de isopor, vaso de aço inox… algumas peças estão vindo da Europa, itens que nunca mostramos por aqui. Há produtos da Edra, da Alessi, da Louis Vuitton, da galeria de Roma, a Giustini Stagetti, e uma peça inédita de cerâmica que fizemos para a Bordalo Pinheiro (tradicional fábrica portuguesa), que será mostrada pela primeira vez. Dos projetos do Instituto Campana, teremos o cobogó Mão e a série de luminárias realizada com as artesãs de Entremontes, AL.”

Sem hierarquias ou cronologias, estarão na mostra desde as antológicas cadeira Vermelha (1998) e a poltrona Favela (2003) até trabalhos mais recentes, como a série Hibridismo, a poltrona Sade e algumas investigações de caráter coletivo – como as luminárias intituladas Retratos Iluminados desenvolvidas pelo Instituto Campana, instituição criada em 2009 pelos irmãos para resgatar técnicas artesanais e promover a inclusão social por meio de programas sociais e educativos.