No aniversário de carreira da dupla mais famosa do design brasileiro, brindamos vocês com as histórias contadas por Humberto Campana sobre essa trajetória

E lá se vão 35 anos de estrada. O tempo passou rápido e Humberto Campana confessa que mal tinha se dado conta disso. Por sugestão de sua equipe, topou comemorar a data histórica com uma visita de jornalistas e parceiros à sede do estúdio no bairro de Santa Cecília, em São Paulo. Na manhã de 18 de junho, para um público de cerca de 30 pessoas, Humberto falou sobre o início da carreira, as peças favoritas e a ausência do irmão mais novo ao encontro. “Fernando está viajando, tirou um ano sabático. Agora, eu estou cuidando do estúdio.” Ele mostrou também fotos da infância em Brotas, das exposições e mencionou alguns dos novos projetos. Trazemos aqui esse conteúdo e ainda o vídeo, gravado por nós, com a apresentação do designer durante o evento.

Fotos: Divulgação.

Sobre o estúdio em Santa Cecília

“O Fernando morou aqui na parte debaixo do estúdio. Isso (mostra o salão onde foi realizada a apresentação) foi construído dez anos atrás. Adoro aqui, esse bairro é tudo de bom, parece cidade do interior e isso me inspira: esses serviços, a venda de azulejos antigos, a cabeleireira, pessoas fazendo as unhas, isso tudo me estimula muito!”

Fotos: Divulgação.

A vida em Brotas

“Eu nasci em Brotas. Nos anos 1950, não tinha asfalto na cidade, mas tinha um cinema. O Cine São José, de um italiano, e era incrível. Passava Barbarella, Stanley Kubrick, western, chanchada e a gente viu tudo. Era uma janela para o mundo, Brotas era muito boring. Meu pai era agrônomo, vivia em fazenda e tudo isso me estimulou, eu tinha um mundo de materiais. Era um tédio morar numa cidade pequena e, como eu não gostava de futebol, eu criava meu próprio universo. Eu fazia casas em árvores.”

Fotos: Divulgação.

Desconfortáveis

“Começou em 1989 na Vila Madalena. De galeria, só tinham a Milan e a Nucleon 8, da Adriana Adam, um galpão incrível na rua Mourato Coelho e a gente fez essa série Desconfortáveis…Eu fazia esculturas na FAAP nessa época, tudo era produzido por nós e as peças eram mesmo superdesconfortáveis (risos)…Isso depois de 20 anos de ditadura, então, saiu como um vômito. Também estávamos questionando o que era o Brasil, suas raízes. Queríamos ir por outro caminho nessa exposição, não seguir o modernismo, mas fazer uma linguagem brasileira, explorando a imperfeição.”

Em 10 de agosto, o Estudio Campana lançará na Casa de Vidro, projetada por Lina Bo Bardi, no Morumbi, em São Paulo, as miniaturas da coleção Desconfortáveis. O valor arrecadado com a venda dos produtos será revertido para o Instituto Campana. 

Fotos: Divulgação.

Cadeira Favela, 1991

“A cadeira Favela foi um ponto importante na nossa carreira. Hoje ela está em coleções de museus. A primeira foi feita por mim, eu pegava as tábuas na rua. Esta rua, aliás, é bem atípica e até hoje jogam coisas nela. Eu agora peço para pegarem isopor (Humberto está criando algumas esculturas com esse material).”

Fotos: Divulgação.

Poltrona Vermelha e MoMA

“A Vermelha nos abriu para o mundo. Fiz em 1991 e só em 1998 foi escolhida para ser produzida na Itália…Vou mostrar um vídeo de como eu fiz essa cadeira, Fernando gravou esse vídeo de eu tramando a cadeira, e o engraçado é que a gente estava brigando enquanto filmava e depois cobrimos o áudio com uma música… Eu fiz umas dez dessas poltronas e o primeiro que comprou foi o Reinado Lourenço. Eu achava que ela estava condenada a ser peça de edição limitada, mas daí a Edra contratou um artesão da Sicília, que amarrava garrafas de vinho, e ele desenvolveu a técnica de tramar e fez bem melhor do que a gente. A corda é feita em Florença….Nesse mesmo ano, tivemos uma exposição no MoMA (Project 66, no Museu de Arte Moderna de Nova York) em um projeto curado pela Paola Antonelli. Eram nossas peças e as luminárias do Ingo (Maurer).”

Fotos: Divulgação.

Coleção H.Stern

“Em 2001 teve a coleção da H.Stern, e foi incrível. O catálogo era lindo e a direção de arte, do Judy Blame (morto em 2018). Pena eu ter perdido o catálogo.”

Fotos: Divulgação.

Sofá Boa, 2002

“Foi uma investigação de como fazer um sofá sem os tradicionais métodos de estofaria…Eu tinha mandado para a Itália um modelo pequeno e o Massimo Morozzi, que era o diretor de arte da Edra, desafiou a gente. Chegamos lá e tinham nove tubos de 90 metros (recheado com espuma e plumas) e ele nos propôs: ‘agora façam o sofá’. Eu e Fernando ficamos tramando e chegamos a ele.”

Fotos: Divulgação.

Poltrona Sushi, 2002

“Esta poltrona eu adoro. Ela não tem estrutura, são vários tecidos: EVA, feltro, pedaço de carpete, grama sintética, tudo enrolado e preso com elástico. Pena que não vendeu, mas é uma das coisas que eu mais gosto e foi tirada de produção. Depois a gente criou uma linha de sushis. Essa foi outra investigação de fazer uma cadeira sem espuma, sem nada.”

Fotos: Divulgação.

Bichos de pelúcia, 2002

“Aqui na rua passava ou passa ainda vendedores de pelúcia. Um dia eu vi essa cena e falei pro Fernando: ‘Isso pode ser uma poltrona’. Eu mesmo costurei um bichinho no outro.”

Fotos: Divulgação.

Corallo, 2004

A cadeira Corallo (mostra a peça pendurada na parede do estúdio), eu queria dar conforto a ela. Mas Massimo Morozzi (diretor de arte da Edra e grande incentivador da carreira dos irmãos) disse: ‘Não, eu não quero conforto, essa cadeira é mais uma escultura’. Massimo foi uma pessoa muito importante. Ele era do grupo Archizoom, era um designer radical. Ele falava: ‘Nunca faça concessões, não siga a moda, vai sempre no seu caminho’. Isso eu guardo até hoje.”

Fotos: Divulgação.

Jenette, 2006

“Esta cadeira eu também adoro. A gente fez para uma amiga nossa (a colecionadora norte-americana Jenette Kahn). Ela era presidente do DC Comics e casa dela parecia um cartoon.”

Fotos: Divulgação.

Parceria duradoura

“Outra parceria que a gente trabalha até hoje é com a Grendene. Esta sapatilha (a Zig Zag) a gente fez em 2006. Pouco tempo atrás, a mesma sapatilha foi lançada por outra marca… A Melissa advertiu a empresa e decidiu retomar as vendas da sapatilha, vendeu tanto, e vende até hoje.”

Fotos: Divulgação.

Temporada em Roma, 2011

“Eu fiquei três meses em Roma num convite de uma galeria (Galleria O.). Deveria me inspirar em lugares históricos de Roma e trabalhar com artesãos locais. Conheci um cara que trabalhava com restauro de móveis, que tinha móveis com ornamentos de bronze, então esta coleção (Privato Romano Interno – Brazilian Baroque Collection) é um patchwork de ornamentos…foi uma experiência legal morar em Roma, naquele ambiente barroco.”

Fotos: Divulgação.

Design acessível, 2017

“A coleção para a Tok & Stok foi algo que eu gostei de ter feito. Design democrático, e preço legal.”

Fotos: Divulgação.

Objets Nomads

“A parceria com a Louis Vuitton começou seis anos atrás e, em 2018, fizemos o vaso Tropicalist, e, em 2019, a poltrona Bulbo.”

Fotos: Divulgação.

Instalação Sleeping Piles, em Milão 2019

“Eu gosto muito de trabalhar com verde, sou muito interessado em trabalhar com o verde, traz uma mensagem positiva, principalmente agora que estão acabando com a Amazônia.”

Agenda futura

“Em agosto, faremos instalações na Made, na Firma Casa e na Casa de Vidro. E fomos convidados pelo MAM para fazer a curadoria da loja, cujo tema neste ano será Sertões. Em setembro, faremos uma palestra no Vitra Museum sobre nosso trabalho e o surrealismo, porque somos contadores de história, muita coisa nossa é intuitiva. Em 2020, teremos uma exposição no salão do MAM no Rio de Janeiro e um novo livro. Não queria fazer um catálogo, mas algo com colagem. Fernando tem grande produção de colagens, o livro não será nada formal e mais intuitivo.”

Veja a galeria com os projetos design de interiores dos irmãos Campana pelo mundo:

Fotos: Divulgação.

Fotos: Divulgação.

Acima, duas das exposições realizadas por Fernando e Humberto Campana.

Foto: Divulgação.

Missões do Instituto Campana

O atual presidente do instituto, Waldick Jatobá, apresentou esse tema aos convidados. Abaixo, um resumo do que ele disse durante o evento:  

“Uma das principais missões do instituto é preservar o legado dos irmãos. Foi construído um galpão em Brotas onde há toda a história, os estudos, as matérias, os protótipos, tudo o que diz respeito hoje ao Estudio Campana está guardado lá. Outra missão é preservar técnicas de artesanato que caíram em desuso ou estão prestes a desaparecer, incentivando essas atividades artesanais e apoiando unidades que trabalham com técnicas como a renda, a trama de palha ou bordado, preservando essa arte de raiz. E a terceira missão é usar o design como ferramenta de transformação social. Os projetos com os quais o instituto trabalha resgatam a autoestima e empoderam pessoas. Os irmãos entram com a veia artística, criando produtos junto com eles, que possam trazer renda.”