A arquiteta gaúcha registrou em fotos a mostra Materica, inaugurada ontem na galeria do nhow Hotel Milano

Depois de ganhar as páginas do prestigiado jornal italiano Corrieri della Sera no ano passado, a gaúcha Inês Schertel chega a Milão como a única representante da América Latina na exposição Materica, com artistas e designers italianos e um japonês. Foi na cidade milanesa, aliás, que Inês descobriu a técnica que a levaria a aderir ao slow design. Na galeria de Rossana Orlandi, ela se encantou com um tapete de feltro rústico confeccionado com lã de ovelhas por artesãos de aldeias nômades asiáticas. “Sempre quis aproveitar o material da tosquia dos animais de minha fazenda. Essa descoberta orientou esse caminho”, diz ela, que já foi diretora de arte e cenógrafa. Em entrevista exclusiva, ela e a curadora da mostra, a italiana Elisabetta Scantamburlo, comentam sobre esse trabalho e as escolhas das peças.

Como você ficou sabendo do trabalho da Inês?

Elisabetta – Descobri as obras dela por meio da brasileira Neia Paz, que me apresentou também a outros designers brasileiros, como Ronald Scliar Sasson e Sérgio J. Matos, que também expuseram no nhow Milano no passado.

O que chamou sua atenção para essas peças? O que fez escolhê-las para a exposição?

ES – A mostra é dedicada aos materiais incomuns e aos comuns usados de maneiras pouco usual. Quando vi o trabalho dela, gostei imediatamente, tanto por seu valor estético como por seu significado: ligado a tradições, de produção local e design ‘lento’, dando uma nova voz contemporânea ao que é antigo.

Quantos criativos participam da mostra no nhow Hotel? Existe algum outro brasileiro ou latino-americano?

ES – São 11 artistas e 7 designers. Inês é a única latino-americana. Haverá também um artista japonês, e os outros são italianos. Normalmente a maioria dos participantes é italiana, mas sempre temos alguns criativos do exterior.

Em um mundo tão tecnológico, como você analisa o slow design que ela pratica?

ES – Há uma tendência crescente para valorizar o modo de vida slow. De slow food a slow design, podemos e temos o dever de preservar as tradições e salvaguardar o mundo em que vivemos de uma maneira mais respeitosa. Respeito às pessoas, à natureza e às coisas em geral. Pessoas criativas como Inês estão preservando a tradição e interpretando-a de uma maneira pessoal e contemporânea. Eu acho que é essa a verdadeira arte em aprender com o passado. Fico feliz de ter a oportunidade de mostrar esse trabalho, na esperança de também aumentar a consideração das pessoas sobre o significado desse tipo de pesquisa. 

Você já expôs outras vezes em Milão, mas essa é a primeira mostra com um grupo de artistas e designers italianos. O que isso representa?

Inês Schertel – Para mim, é muito importante ser selecionada com artistas e designers de renome na Itália e em outros países. Nas outras vezes, participei apenas durante a Design Week Milano, mas desta vez, terei a oportunidade de mostrar meu trabalho durante um longo período – até 31 de outubro. E, em se falando de Milão, capital mundial do design, isso ganha uma importância enorme.

Como foi sua conversa com a curadoria durante esse processo de escolha dos produtos?

IS – Eu mostrei para ela algumas peças que considerava representativas em termos de técnica, tingimento e acabamento. Achei que escolheria duas ou três no máximo, mas Elisabetta acabou selecionando todas as sete!

Como você vê o artesanal inserido no contexto do design contemporâneo?

IS – O artesanal é contemporâneo desde que ele existe. É um movimento de busca pela simplicidade e da verdade. Meu trabalho sempre é feito com afeto, compromisso, seriedade e de maneira muito autoral.

Qual o sentindo do slow design para você?

IS – Para trabalhar melhor, decidi ter uma vida mais simples, respeitando o tempo das coisas acontecerem. Cada etapa tem seu storytelling e participo de todas com respeito cada vez maior. Não desejo uma grande produção de peças. Minha proposta é fazer menos e melhor.