Da arquitetura ao design de produto, três projetos assinados por Diego Revollo que aplicam essa tendência

O arquiteto Diego Revollo vem de uma escola que valoriza as linhas retas. De dois anos para cá, porém, o interesse pelas formas curvas veio à tona e ele começou a adotá-las em seus trabalhos, assim como percebeu uma tendência nesse modelo. “Identifico como um art déco revisitado”, afirma. Nesta matéria, ele apresenta dois apartamentos que exploram essa temática, tanto na configuração dos móveis como na da arquitetura. Convidado por uma empresa de marcenaria a desenhar peças para seu novo showroom, o arquiteto criou armários, gaveteiros e puxadores de cantos arredondados.

Por que você acredita que as curvas estão se sobrepondo à ditadura das linhas retas?

Acho que essa é uma tendência que não veio só pela estética, mas reflete o momento em que estamos vivendo: o de quebrar a rigidez. Espaços fluidos e curvos deixam a atmosfera mais leve, e o layout e a alvenaria podem contribuir para isso. Quando eu comecei a trabalhar com design de interiores, a regra de distribuição dos móveis era a ortogonal: um ou mais sofás, poltronas e uma mesa de centro enorme. Hoje já mudamos isso e incluímos modelos menores, há arranjos mais leves e informais para estimular a conversa. Se você reparar até as camas hoje aparecem mais desarrumadas, o milimetricamente perfeito vem perdendo espaço e as pessoas suavizaram a maneira de morar.

Os clientes vêm com essa demanda?

Alguns, sim, mas o importante é não pasteurizar, não quero usar a mesma fórmula para todos. O profissional precisa levar em conta quem vive ali. Eu particularmente gosto de madeira preta e de tons escuros, não sou afeito a cores, mas minha personalidade precisa estar abaixo da do cliente. Qual é a graça se eu só fizer o que eu gosto? O novo projeto é sempre um exercício para um novo modelo.

Que outras mudanças você identifica na decoração?

Vejo que o cinza está perdendo força e o cru e as cores que dão tranquilidade estão em alta. As escolhas de fato estão ficando mais leves, os móveis retornam às linhas dos anos 1950 e 60. Tenho também procurado explorar mais recursos de alvenaria do que os de marcenaria. Vejo os materiais foscos ganharem espaço. Teremos menos brilho, menos ostentação e aceitaremos com mais facilidade as imperfeições, ninguém deve virar escravo da própria casa, que deve ser mantida com harmonia e tranquilidade

Fotos: Alain Brugier.

Base neutra e móveis de formas orgânicas

“Este apartamento de cerca de 500 m² fica no edifício Marrakesh, um dos exemplares de estilo mediterrâneo erguido nos anos 1980 pela Lindenbergue, tradicional construtora de São Paulo. Começamos o projeto há três anos e ainda não existia essa tendência das formas curvas, pelo menos isso não estava claro para mim. O cliente nos contratou porque não tinha ficado contente com o projeto anterior, que ‘brigava’ com a planta do apartamento. A fachada do edifício é arredonda, assim como todos os cantos da construção. O primeiro escritório havia feito uma readequação para as linhas retas, o que desagradou os proprietários. Nós já partimos das formas originais, pois o genuíno ali eram as curvas, e tiramos partido disso tanto na arquitetura como na marcenaria. Integramos a área social: você percorre todo o living sem abrir uma porta, isso trouxe claridade para o imóvel, pois antes os vãos eram pequenos e havia muita alvenaria. A proprietária adorou o layout que propusemos e, depois, se encantou com as curvas. Na reforma, ficamos com uma coluna no meio da sala e decidimos arredondá-la para não fugir do contexto. A antiga copa virou a área gourmet, alguns degraus acima do living – esse desnível entre os ambientes era frequente nos anos 1980. Na decoração, temos algumas importantes peças de design, brasileiro e internacional: a poltrona Alta, de Anna e Oscar Niemeyer, o banco Onda, do Jorge Zalszupin, a mesa e as cadeiras de metal de Warren Platner, o recamiê Barcelona de Mies Van Der Rohe, a mesa de centro Nogushi. A coleção de máscaras africanas foi incorporada ao projeto, ficando exposta na estante. A base é neutra, com peças mais claras e alguns pontos de cor nas poltronas.”

Fotos: Renato Navarro/Divulgação.

Arquitetura fluida

“Este imóvel tem uma linguagem mais atual do que a anterior, que foi minha primeira incursão nas curvas e, por isso mesmo, mais contida. A dona do imóvel é fã do escritório e nos acompanha faz tempo. Ela topou fazer algo fora da linha de conforto, com recursos mais de alvenaria do que de marcenaria. A porta principal se abre para a sala e, em geral, faríamos um grande painel de madeira para criar um hall de entrada, mas eu desejava fugir dessa solução. Por um longo período a marcenaria funcionou como um incrível e sofisticado recurso arquitetônico, mas também muito caro. Neste caso, exploramos a alvenaria, solução mais barata e inovadora. Empregamos três portas de correr, instaladas no drywall, para dar impacto visual: elas escondem a cozinha, a porta de entrada e o acesso à área íntima. O gesseiro trabalhou muito bem aqui, esculpindo formas curvas e mais fluidas. Esses elementos são mais comuns em fachadas e pouco explorado no design de interiores. As curvas estão também presentes na bancada de Silestone da churrasqueira, no móvel do home theater, nos detalhes dos gabinetes dos banheiros, nas formas da mesa da cozinha. Outra questão foi a escolha do piso: usamos porcelanato da Portinari que imita pedra, em grandes tamanhos. Sou da ‘escola’ do Roberto Migotto, com quem trabalhei: no piso, você opta por madeira ou mármore. Sempre fui contra os fakes, mas, neste apartamento, eu finalmente cedi a eles. A indústria do porcelanato está se superando a cada dia. Na área íntima, o assoalho é de cumaru, que envelhece bem. O cimento queimado preto foi usado nas paredes da cozinha, do hall de entrada e do lavabo, e o granito preto variou na textura: liso e apicoado.”

Veja na galeria abaixo alguns dos móveis planejados por Diego Revollo para o showroom da marcenaria Augusto Moreno.

Fotos: Fran Parente/Divulgação.