Feira em Estocolmo traz peças inspiradas na obra de Zanine Caldas e Mauricio Azeredo

Mais uma feira na Europa na qual o desenho brasileiro é reverenciado: a Stockholm Light and Furniture, na capital sueca, que termina amanhã (8). Em estande compartilhado pela FAU-USP, de São Paulo, e as Träcentrum School e Jönköping University, de Estocolmo, peças realizadas por estudantes das instituições homenageiam dois mestres da madeira: o baiano José Zanine Caldas (1919-2001) e Mauricio Azeredo.

O projeto, sob a tutela da professora Maria Cecília Loschiavo, da arquiteta Amanda Carvalho, ambas da FAU-USP, e do designer Paulo Alves, previu o desenvolvimento das peças na Marcenaria São Paulo, de propriedade de Alves. A ideia de celebrar o centenário de José Zanine Caldas por meio de um banco partiu das instituições. Já a homenagem a Maurício Azeredo foi sugestão de Alves.

Azeredo, que vive em Goiânia, é referência no uso de diversidade de madeiras e seu envolvimento no projeto pretende ressaltar a importância de se preservar as espécies para garantir que a floresta continue de pé. As peças foram criadas pelo Grupo de Estudos da Madeira (GEMa), da FAU-USP, e pelos estudantes suecos — cada turma produziu os itens em seu país de origem.

“Fizemos uma videoconferência com Maurício e ele apresentou seu trabalho aos estudantes. Foi acompanhando o desenvolvimento do mobiliário à distância”, contou Paulo. “Ele e Zanine tratam a questão da sustentabilidade de maneiras distintas: Maurício explora a diversidade das espécies, enquanto Zanine denunciou com seus móveis, conhecidos como Móveis Denúncia, a derrubada da mata no sul da Bahia nos anos 1970.” Tanto Alves como Maurício chamaram a atenção dos grupos para a importância de se usar a totalidade da árvore na fabricação do mobiliário. “Hoje, só 30% da madeira da árvore vira móvel.”

O intercâmbio entre as universidades iniciou em março de 2019, quando o Estúdio Paulo Alves recebeu quatro estudantes suecos para desenvolver o trabalho de graduação num programa que combina aulas teóricas e práticas. Neste ano, de fevereiro a maio, o estúdio receberá mais dois alunos suecos para realizar o trabalho de graduação.

O Grupo de Estudos da Madeira (GEMa), da FAU-USP, fundado para aprofundar o uso sustentável da madeira na arquitetura e no design, produziu, na Marcenaria São Paulo, os bancos apresentados na feira de Estocolmo. O material foi cedido pela Precious Wood, maior empresa de madeira tropical certificada em operação no Brasil, cuja área soma 500 mil hectares de floresta nativa no Amazonas.

O banco Bumbá, que homenageia Zanine Caldas, respeita as formas da matéria-prima com fabricação artesanal, fazendo alusão à forma da árvore. O móvel foi inspirado no período de criação dos Móveis Denúncia, nos anos 1970, no qual Zanine Caldas questionava a devastação das florestas, produzindo mobília com os restos dos processos de desmatamento e queimadas no sul da Bahia. A banqueta realizada tem ainda uma tira de couro, fazendo referência à pecuária.

Um mergulho no vasto acervo de madeiras disponibilizado pela Precious Wood permitiu a confecção deste banco, 50 x 50 cm. “Estudamos a série Casa Grande e Senzala, do Maurício, feita com ripas. Elas se intercalam num tipo de encaixe que se chama malhete – sem parafuso ou prego”, contou João Monteiro, um dos fundadores do GEMa. Os estudantes empregaram 26 espécies de madeira para construir a peça naturalmente multicolorida.

Paulo Alves, que está feira, mandou para Olhares.News as imagens do estande de Kengo Kuma, o que ele considerou mais bacana no evento em Estocolmo.

Veja abaixo o vídeo com a primeira turma de estudantes suecos, em maio de 2019, gravado na Marcenaria São Paulo.