Três galeristas comentam sobre as feiras e as exposições que mais gostaram nesta edição do tradicional evento na Flórida

As instalações da Pinta Miami Fair chamaram a atenção da galerista Bruna Bailune, da Aura.

A Art Basel Miami Beach e a Design Miami, feiras de arte e design que acontecem em dezembro na cidade da Flórida (EUA), já entraram para a agenda dos brasileiros. Depois da Semana de Design de Milão, realizada anualmente em abril, esse é o evento que mais atrai arquitetos e designers de interiores de nosso país. Além das duas principais feiras, há uma infinidade de outras satélites que se espalham pela cidade praiana. Isso sem contar as exposições de museus, instituições e lojas, inclusive de marcas nacionais, que costumam inaugurar nesse período. Para saber os destaques deste ano – de 4 a  9  de dezembro –, ouvimos três empresárias, donas de galerias de diferentes segmentos em São Paulo, e publicamos as fotos registradas por elas com a câmera de seus celulares.

Graça Bueno comanda a Passado Composto Século XX, especializada em arte, tapeçaria e mobiliário moderno brasileiro. A empresária tem resgatado a memória do design nacional em móveis e tapeçarias desde 2009. Em 2012, publicou o livro “Artistas das Tapeçarias Modernas”.

“Vou à Semana de Arte de Miami desde 2013. Eu costumava visitar todas as feiras paralelas, mas neste ano me concentrei na Art Basel, que já é enorme, e na Miami Design, onde sempre circulo mais de uma vez. Visitei também as fundações e os museus. Minha pesquisa é principalmente sobre tapeçaria e percebo que os artistas contemporâneos têm se manifestado com frequência nessa superfície. Dos mais renomados aos menos conhecidos, os artistas internacionais têm executado obras com essa técnica, seja em bordado à mão, teares, como os Aubussons que renasceram, ou na técnica do jacquard. Depois dessa visita, fiquei com a impressão de que a arte está cada vez mais handmade.”

Outros destaques

“O Instituto Wolfsonian, um pequeno museu de artes decorativas em Miami Beach, abrigou a exposição “Made in Italy” com retrospectiva da fábrica MITA Textile Design, que produziu tecidos e tapeçarias artesanais de 1926 a 1976.Foi uma grata surpresa conhecer o trabalho dos artistas italianos.”

“No Instituto de Arte Contemporânea (ICA), tinham várias exposições e a da Judy Chicago foi a que mais me chamou atenção. Ela ficou famosa pela composição de pratos de cerâmica na obra “The Dinner Party”, fez pinturas coloridas nos anos 1960 e instalações. Nos anos 1980, produziu tapeçarias surrealistas, cujos temas femininos predominavam. Em palestra na feira, ela afirmou que a técnica da tapeçaria é considerada uma arte menor por ser feita principalmente por mulheres.”

“No Pérez Art Museum, fiquei bastante impressionada com as cores e as texturas da mostra “…while the dew is still on the roses…”, da jamaicana Ebony G. Patterson. Eu a conheci no coquetel do Christian Louboutin, onde a artista executou a vitrine da loja de sapatos.”

“Na Design Miami, visitei os estandes de diversas galerias, como a argentina Cristián Mohaded com obra do designer Entrevero que fez interferência na tapeçaria artesanal com tema indígena. Na galeria francesa Laffanour, me encantei com a tapeçaria Le Corbusier, edição recente executada em Aubusson. Encontrei também a artista Bethan Laura Wood no lounge da marca de champanhe Perrier Jouet, onde ela exibiu os tecidos feitos para a italiana Moroso e uma tapeçaria fabricada na Índia com saris reciclados. Deu para notar que o mobiliário histórico continua supervalorizado e o contemporâneo está quase perdendo a função, as poltronas são mais esculturas do que feitas para sentar. Pude conferir isso também no museu Bass, onde está acontecendo a exposição Ferngully, dos irmãos norte-americanos Hass, que exploram o universo lúdico em móveis e objetos.”

Vilma Eid é colecionadora de arte e dona da Galeria Estação, em São Paulo, especializada em arte não-erudita. Em suas pesquisas pelo país, destacou nacionalmente alguns artistas, como o sergipano Véio e o pernambucano Zé Bezerra. Participou neste ano com sua galeria da feira Pinta Miami, expondo as obras do gravurista piauiense Santídio Pereira.

“Já conhecia Miami, mas essa foi minha primeira vez nas feiras. Achei a Art Basel Miami Beach de altíssimo nível. Você percebe que as pessoas que circulam por lá estão interessadas em comprar. Dos estandes que mais gostei, destaco o da galeria Maisterravalbuena, de Madri, que expôs o espanhol Antônio Ballester Moreno. O artista também participou da última Bienal de Artes em São Paulo. Nossas galerias estavam muitíssimo bem postas. A Dan levou uma linda série de Volpis dos anos 1950 e 60, mas dá para perceber que os americanos estranham os valores, acima de 250 mil dólares. Conversando com os expositores, soube que as obras mais vendidas têm preços entre 10 mil e 50 mil dólares. Eles se queixaram de as vendas estarem mais devagar este ano. Os grandes colecionadores não apareceram ou só apareceram para dar um olá. Eu já não resisti e acabei comprando uma obra do Ballester Moreno, uma do cubano Carlos Garaicoa e uma escultura do Marcelo Moscheta na Galeria Vermelho.”

Outros destaques

“Outra feira que me impressionou foi a Miami Internacional Art Fair, com galeristas norte-americanos e europeus, e alguns da América Central. Vi muitos desenhos e esculturas do Alexander Calder, peças únicas dos anos 1950 e 60, e deu vontade de comprar vários deles.”

“Achei a Untitled a mais jovem e simpática das feiras. Fica na praia, é bem iluminada, tem certa informalidade tanto das pessoas como das galerias. É mais variada, mas tem alto nível. Dos artistas, me chamaram a atenção as obras do americano Robert Kelly.”

“Adorei a exposição Convergências e Divergências, do colecionador Juan Carlos Maldonado, no Design District, com obras abstratas de artistas latino-americanos, como Torres Garcia, Mira Schendel e Carmen Herrera, em diálogo com cestarias indígenas da Venezuela. Outro ponto altíssimo foi ver a The Margulies Collection, com o mais lindo acervo do pintor e escultor alemão Anselm Kiefer que eu já vi.”

Bruna Bailune está à frente da Galeria Aura, com foco em arte contemporânea e fomento a novos artistas. O espaço, na Vila Madalena, nasceu em 2017 como uma extensão da plataforma online.

“Essa foi minha primeira vez em Miami e rodei muito para pesquisar todas as feiras porque temos intenção de trazer a Aura para cá no ano que vem. O circuito é muito diverso e tem feira para todo tipo de gosto e orçamento. Pelo que me falaram, as vendas não foram maravilhosas como há três anos, o mercado ficou retraído, a não ser pela Basel, por onde circulam os milionários. Deu para perceber também que os artistas brasileiros da Aura têm mais possibilidades de despontarem nos Estados Unidos do que no Brasil. Eles trabalham com conceitos da metafísica, da física quântica, linguagens internacionais e não têm foco no histórico. Em 2019, vamos priorizar o mercado externo ao interno.”

Outros destaques

“Gostei muito da Untitled, com arte contemporânea e montada na beira da praia. Lá estavam galerias brasileiras como a Portas Vilaseca, do Rio de Janeiro, expondo Mano Penalva e Debora Engel, e a Zipper, de São Paulo. O estande da galeria Sapar me surpreendeu, com obras do japonês Shinji Turner-Yamamoto e Faig Ahmed, do Azerbeijão. A feira NADA, no norte de Miami, intenciona revelar jovens artistas com galerias da Europa e dos Estados Unidos. A Division, de Montreal, foi uma das que eu mais gostei, assim como a Nicelle Beauchene, de Nova York.”

“Visitei a Pulse Art Fair e achei a mais americanizada das feiras, você quase não vê latino e se detém em arte pop. É um fenômeno de público, mas cai muito no gosto norte-americano. A Scope, na beira da praia, também estava lotada, com gente jovem interessada em comprar um tipo de arte que não me atrai. Já a feira Pinta Miami é mais focada em arte latino-americana, com instalações bem montadas na área Projects Section. A seção Solo tinha obras da brasileira Yuli Yamagata.”