Medos, planos, expectativas: profissionais do design relatam suas experiências e enviam fotos que ilustram suas quarentenas

Se os centros urbanos estão vazios, como estarão as cidades distantes das capitais? Pedimos à gaúcha Inês Schertel, que vive em uma fazenda no Rio Grande do Sul e produz móveis e objetos com lã de ovelha; ao mineiro Domingos Tótora, morador de Maria da Fé, na Serra da Mantiqueira, e criador de uma técnica que transforma papelão em mobiliário; ao curitibano Ronald Sasson, designer industrial radicado em Gramado, no Rio Grande do Sul; e ao mato-grossense Sérgio J. Matos, proprietário do estúdio que leva seu nome, em Campina Grande, na Paraíba, para falar sobre os medos e as experiências vivenciados durante a reclusão.

Inês Schertel, São Francisco de Paula, RS

“Meu marido e eu estamos em casa, no nosso campo, onde criamos ovelhas. Nossa propriedade fica na mata nativa de araucária no sul do país e, a cada dia, percebemos que a escolha de deixar São Paulo para viver no campo foi acertada. Aqui respeitamos a ordem natural dos acontecimentos. Ovelhas nascem, pastam e nos fornecem lã, material que abastece meu ateliê, montado há sete anos. As folhas, as sementes e os musgos crescem no campo e ajudam no tingimento das peças que eu produzo manualmente, uma a uma. Cada coisa a seu tempo e cada etapa com sua história. A reclusão não mudou muito nossa rotina, tenho tudo do que preciso aqui: minha inspiração, minha matéria-prima, meu alimento. A água do poço é da melhor qualidade, temos verduras, frutas, ovos, leite da vaca. Fazemos bastante atividade física e o ar é puríssimo. Percebemos também que precisamos de muito pouco para nossa satisfação pessoal. A pandemia afetou minha produção, pois as mostras de design que eu participaria no Brasil e fora daqui foram canceladas ou adiadas. Teremos de enfrentar o futuro incerto com muita paciência, criatividade e mais trabalho. Estou aproveitando esse período para pesquisar novas formas de uso da lã. Certamente essa experiência global nos levará a outro tipo de vida e que ele seja muito melhor para todos.”

Domingos Tótora, Maria da Fé, MG

“Nossa rotina se transformou radicalmente de uma hora para outra. Maria da Fé está parada, estamos seguindo todas as normas de isolamento e, por ser uma cidade pequena, é mais fácil esse controle. Estamos na nossa casa, meu irmão e eu cuidando da nossa mãe. Ela tem 89 anos e muitas limitações físicas, mas a cabeça está ótima. Nos dá muita paz passar o dia em contato com ela. Conversamos bastante. Em outros momentos, fico quieto refletindo sobre o futuro. Tudo aqui é silencioso. Eu consigo perceber o silêncio dentro desse silêncio, a foto que enviei ilustra esse momento. A natureza continua pulsando como sempre. E, no decorrer dos dias, vou respirando e amadurecendo alguns projetos. Logo depois, vem a preocupação: quem vai consumir design e obras de arte? De uma coisa eu tenho certeza: não consigo viver sem meu trabalho criativo. A oficina parou com um tanto de peça por acabar. Antes de interromper tudo, conversei com os funcionários e passei para eles todas as recomendações de higiene. Eles estão ansiosos querendo saber quando voltaremos a trabalhar. Tenho como sobreviver como empresa por três meses, mas penso em propor a eles um sistema de divisão de lucros, como uma cooperativa. Outra ideia é recorrer à linha de créditos oferecida pelo governo. Mas, no fundo, eu fico bem motivado para enfrentar esse novo período, quando toda essa sombra se dissipar. A galeria Sarah Meyerscough, uma das mais prestigiadas do mundo, selecionou peças minhas para expor em seu espaço em Londres. Eles me conheceram por intermédio da Sage Culture, galeria em Los Angeles, na qual expus meu trabalho no ano passado. Acredito que esse seja um sinal de que as coisas possam melhorar, é como uma luz no fim do túnel.”

Ronald Sasson, Gramado, RS

“Gramado, por ser turística, tem sempre a energia boa das famílias que vem até aqui para ver essa ‘pequena Europa’. A cidade, agora, parece um cenário vazio esperando os atores e os figurantes aparecerem novamente. Apesar de morar aqui, eu trabalho em várias cidades na serra gaúcha: Antônio Prado, Bento Gonçalves… são nessas cidades que ficam as fábricas moveleiras com as quais eu trabalho e que agora estão fechadas. Quando o governo do estado e dos municípios decretaram a paralisação de toda atividade não essencial, eu me vi obrigado a reescrever os próximos capítulos da minha vida, sem ensaio ou planejamento prévio. Meu roteiro sempre foi desenhar, me reunir com meu time de colaboradores, acompanhar protótipos e viajar. Tudo mudou. Desde o começo do afastamento social, eu tenho desenhado em casa sozinho, feito reuniões com meu time por Skype e TeamViewer, usado o WhatsApp para falar diariamente com os players do meu negócio, como clientes, fábricas e amigos. Estou também colaborando com matérias e campanhas das mais diversas que muita gente está fazendo para manter o alto astral e a positividade. Passei a cozinhar para minha família, coisa que eu nunca fiz. Estou me saindo muito bem, até bolo de cenoura eu fiz outro dia. Também passei a me exercitar, voltei a estudar guitarra, uma grande paixão, e estou assistindo a muita série. Vejo esse período como uma pausa para refletir. Estou revendo o que realmente preciso para viver. Quero ser positivo, mas também tenho muito medo, talvez o maior deles em muitos anos. Se isso se prolongar demais, eu me pergunto: por que desenhar e para quem? E se não existir mais fábricas e lojas? Todo designer recebe seus vencimentos por royalties, e isso é uma cadeia. Não sou contra o isolamento social, mesmo porque não tem outra maneira de evitar agora o caos maior, mas, conhecendo as fábricas como eu conheço, sei elas não vão aguentar por muito tempo. Elas vêm sentindo no decorrer dos últimos anos uma queda de faturamento, a margem que sempre foi boa até os anos 90 acabou sendo transferida para outras pontas da cadeia. Temo por elas. Em algum ponto disso tudo, chegaremos a uma encruzilhada, um dilema do que fazer como sociedade. Espero que Deus nos ajude a ter sabedoria para seguirmos em paz a um futuro melhor. A serenidade e a sabedoria terão de ser nossas companheiras mais próximas para escrever um novo capítulo da nossa história. Fiquem bem e muita saúde a todos.”

Sérgio J. Matos, Campina Grande, PB

“Nós já estamos há duas semanas trabalhando em casa pela segurança da equipe. Tínhamos duas estagiárias colombianas recém-chegadas, que também estão trabalhando à distância. Temos discutido os projetos pelo WhatsApp, um ou outro funcionário tem ido ao estúdio receber ou enviar mercadoria. Várias encomendas já estavam prontas, mas a produção está parada e a gente acredita que, em um mês, poderemos retomá-la. Tínhamos bastante planos para este ano, mas tudo mudou, cancelaram palestras e consultorias. Mas o que me preocupa bastante é a situação dos artesãos, muitos estão sem trabalhar e a única fonte de renda deles é o artesanato. Começamos uma campanha de arrecadação de recursos para comprar alimentos para um grupo de senhoras indígenas de Manaus. Muitos grupos com os quais eu trabalhei me deixam preocupado. Nesse momento, você enxerga o nível de necessidade de cada um: nós estamos na crise e vamos perder muito com ela, mas tem gente que não tem o que comer, isso, sim, me preocupa. E essas pessoas precisam estar protegidas, espero que a internet possa ajudar a expandir essas campanhas. Quanto ao estúdio, continuamos a atender os arquitetos para novos projetos, mas não temos como prever a data de entrega. Estamos isolados por um bem maior e vamos esperar que isso tudo passe rápido, estou confiante. Mando para vocês a foto que tirei em Benjamin Constant, no Amazonas. A tempestade representa bem o que estamos vivendo. Mas a certeza que podemos ter é de que ela vai passar.”