Com a pandemia, cozinhar em casa virou necessidade e tem muita gente transformando esse possível desafio em prazer

Nunca se viu tantos pratos saborosos desfilando pelas redes sociais. E nunca se viu tanta gente em casa desenvolvendo dotes culinários, até mesmo quem até outro dia não sabia fritar um ovo. No Instagram, borbulham os chefs profissionais e amadores. Se os primeiros estão encontrando novas maneiras de manter seus negócios ativos, os cozinheiros espontâneos vêm redescobrindo esse prazer, muitas vezes negligenciado pelo ritmo frenético da rotina. Conversei com dois desses ‘chefs’ caseiros, o arquiteto Antonio Ferreira Júnior, que tem preparado apetitosas refeições para si, e a designer de interiores Tota Penteado. Com sete pessoas morando em sua casa, Tota transformou o preparo diário do jantar em momento de relaxamento. Nesta reportagem, ambos contam como tem sido essa experiência e ainda compartilham receitas.

Antonio Ferreira Junior

“Estamos resgatando uma série de valores perdidos, e cozinhar tem sido um deles. Na correria do dia a dia não sobrava mais tempo. Acho que a quarentena traz isso de bom, além de deixar todos no mesmo nível, com atribuições que não mais imaginávamos ter. Eu aprendi a cozinhar quando saí da casa dos meus pais e fui morar numa república. Aprendi na marra. Naquela época não era prazer, mas necessidade. Hoje o cozinhar traz um paladar diferente e é mais saudável, antes eu comia qualquer coisa, até fritura, tudo estava bom. Hoje é diferente, minha comida se tornou mais rica. As receitas, eu pesquiso na internet. Compro couve-flor, brócolis, abóbora… e me dá vontade de fazer algo diferente, de sabor mais sofisticado. Busco sugestões simples e que demandem pouca louça porque eu odeio lavar prato. Tenho recorrido às receitas da Ana Maria Braga, às do site Tudo Gostoso…sempre dá certo. Cozinho só para mim, antes era um ato social, eu cozinhava quando recebia os amigos. Agora desfruto desse momento com prazer. Além de cozinhar, tenho me dedicado também à pintura. Minha mesa de jantar virou meu ateliê com tintas e pincéis por todo lado. Quem sabe pode virar até uma exposição quando tudo isso terminar.”

Receita de tomatinhos confitados

Ingredientes:

1 kg de tomate cereja, ½ copo de azeite, 10 dentes de alho com casca, 2 galhos de alecrim, 1 colher de sopa de açúcar e sal a gosto.

Modo de preparo:

Lave os tomates, coloque-os em uma assadeira ou travessa refratária com os demais ingredientes, polvilhe o sal e o açúcar. Leve ao forno por uma hora. Sirva com muçarela de búfala e aspargos grelhados.

Antonio ensina também uma sobremesa light:

“Tenho misturado gelatina de diferentes sabores com iogurte natural, bato essa dupla no liquidificador para fazer uma mousse deliciosa. Outra dica fácil e saborosa é o bolo de laranja. Compro a massa pronta da marca Dr Oetker, vale experimentar, o bolo fica superfofinho”, recomenda ele.

Tota Penteado

“Sempre gostei de cozinhar. É na cozinha que eu relaxo e me desligo do mundo. Acho que o design, a gastronomia e a moda estão entrelaçados e tudo isso me dá prazer. Desde o início do isolamento social, estou cozinhando todos os dias, assim como tenho me dedicado a meditar todas as manhãs, o que não fazia antes. Meu modelo de trabalho é o home office, fiz essa opção há anos, mas agora a casa foi invadida pelo resto da família e a rotina ganhou outro ritmo. Quando chega o final da tarde, já começo a planejar o jantar. Pesquiso as receitas nos livros ou nos sites dos chefs que eu admiro, como Rita Lobo, Bel Coelho, Jamie Oliver… Não sigo à risca as sugestões deles, tento simplificar e dar minha versão aos pratos. No almoço, dou uma nova roupagem ao que já cozinhei no dia anterior. A turma daqui elogia, principalmente quando faço picadinho tailandês com farofa de coco, um prato que eu aprendi no restaurante Marakuthai. Para este domingo, estou pensando em resgatar receitas da minha mãe, que era portuguesa. No Dia das Mães, nossa casa enchia de gente, eram 30 pessoas para almoçar e tudo feito por ela. Preparava carne assada, maionese, pratos bem caseiros. Guardo os sabores dessa época. Gastronomia, para mim, é isso, você recuperar memórias, cheiros e sabores. Pronto! Decidi: o almoço de domingo será uma homenagem à família.”

A receita de carne assada preparada pela mãe de Tota nos almoços de Dia das Mães

Ingredientes:
1 peça de lagarto de até 2 kg
3 caixinhas de bacon picadinho para recheio
1 cebola grande
3 dentes de alho
4 folhas de louro
1 punhado de pimenta do reino
2 colheres de sobremesa de sal
12 colheres de sopa de mostarda
1 copo grande vinho tinto seco
1 ramo de manjericão, salsinha, alecrim
1 copo grande de água
1 tablete de manteiga

Modo de preparo:
Fure o miolo da peça com faca, coloque o bacon para umedecer na hora que estiver assando. Faça uma marinada com os outros ingredientes.
Coloque essa peça já com o bacon em um saco para a marinada e deixe de um dia para o outro.
Tire da marinada e coloque em uma assadeira com a gordura para baixa sobre metade da manteiga picada e, a outra metade, coloque sobre o lagarto, regue com o caldo da marinada e cubra com alumínio.
Leve ao forno média duas horas, examinando de vez em quando para ver se não secou o caldo.
Com 1h15 de forno, retire o papel alumínio e deixe dourar. Ao fim do cozimento, retire a carne e misture na assadeira uma xícara de água ao molho. Leve ao fogão para soltar o fundo e apurar. Regue a carne com esse molho e sirva com batatas rústicas.