Usados no transporte de cargas, eles ganham relevância na arquitetura ao abrigarem escritórios, hotéis, lojas, mostra de decoração e até universidade

Não é de hoje que contêineres são usados por arquitetos e designers de interiores como estruturas residenciais e comerciais. Em São Paulo, Marcio Kogan planejou o showroom de móveis Decameron, na al. Gabriel Monteiro da Silva, com esse recurso. Isso foi em 2011 e até hoje a edificação chama a atenção na mais badalada rua de decoração da capital paulista. Com certa frequência, o elemento surge também em mostras de decoração, como aconteceu no projeto de Marília Pellegrini na Casa Cor São Paulo 2019 (foto acima). Inspirados no tema, entrevistamos a profissional para saber o motivo dessa opção e mostramos ainda cinco projetos de renomados arquitetos internacionais.

Fotos: Dixon Jones /  Reprodução / Designboom.

Famoso por suas bem humoradas esculturas e instalações, o escocês David Mach projetou seu primeiro edifício com mais de 30 contêineres empilhados. Nomeado Mach 1, funcionará como um centro de artes e eventos no Edinburgh Park, empreendimento imobiliário em Edimburgo, na Escócia, assinado pelo premiado escritório inglês Dixon Jones. 

Fotos: Divulgação.

Para a expansão da universidade π-ville 99, em Seul, o escritório coreano Urban Intensity Architects empregou 38 contêineres reutilizados, projeto em consonância ao espírito pioneiro da instituição de ensino. As cores e a disposição dos blocos, com áreas livres e descobertas entre os pavilhões, propõem aos alunos um ambiente de estudo diferente do usual. O novo prédio abriga salas de aula, estúdios, auditório, café e banheiros.

Fotos: Divulgação.

A ideia dos arquitetos Sandro Ramishvili e Irakli Eristavi para o hotel boutique Quadrum, localizado a 2,2 mil metros do nível do mar, na Geórgia, foi criar uma construção que afetasse o mínimo possível seu entorno. Escolheram contêineres para compor a estrutura montada em formato de pirâmide, proporcionando assim uma vista privilegiada das montanhas da Cordilheira do Cáucaso da janela de cada quarto.

Fotos: Divulgação.

O japonês Kengo Kuma reuniu 29 contêineres para conceber esta unidade da Starbucks em Hualien, no Taiwan — primeiro projeto do arquiteto a utilizar esse tipo de estrutura. Localizada em uma das principais avenidas da cidade, a loja tem também um drive thru. Voltadas para a fachada, as extremidades ganharam janelas de vidro para favorecer a entrada de luz natural.

Fotos: Enlong Zhu.

Dez contêineres formam o prédio comercial de três andares assinado pelo escritório Yiduan Shanghai Interior Design, na ilha chinesa Chongming. Para garantir um desenho diferente, mas sem descaracterizar seu material principal, os arquitetos criaram uma extensão feita de ripas de madeira para cada unidade, garantindo maior integração entre áreas internas e externas, e também iluminação natural. No térreo, fica a recepção, no segundo pavimento, a lanchonete, e, no último, sala de reunião. 

Formada por dois contêineres acoplados, a casa proposta por Marília Pellegrini na Casa Cor São Paulo abriga living, cozinha, suíte e lavanderia integrados em 60 m². “Essa ideia poderia funcionar muito bem como um pavilhão de hóspedes”, diz a profissional. Para a ambientação, ela selecionou peças de designers como o japonês Oki Sato, da Nendo, e o francês Christophe Pillet. Veja abaixo a entrevista feita com a arquiteta.

Que tipo de preparo o contêiner precisa receber para se transformar em um espaço a ser habitado? 
O contêiner tem uma longa vida útil como caixa para transporte marítimo, recebeu muitas cargas e esforços. Por esse motivo, apesar das medidas parecerem exatas e padronizadas, ele não é completamente reto. Precisa passar por uma estruturação por meio de perfis metálicos para virar uma superfície plana e bem acabada, premissa do nosso projeto.

Por que você optou por esse elemento?
Nossa ideia foi fazer uma casa que não parecesse um contêiner como já foi apresentado em outras edições da Casa Cor. Quisemos projetar algo de alto padrão, com acabamento de primeira, no qual a estrutura ficasse totalmente imperceptível. Apesar das três vantagens que a construção oferece: mobilidade, rapidez e sustentabilidade, há ainda uma certa desconfiança, motivada especialmente pela popularização de acabamentos industriais para esse tipo de solução, criando ambientes frios e impessoais. Queríamos provar o contrário.

 Você considera que os contêiners serão uma solução residencial para o futuro?
Sem dúvida, com algumas adaptações e pelas três razões acima descritas. Trata-se de um material de descarte que pode ter vida ainda mais longa quando usado com o propósito de edificação. Quando tivermos a consciência da sustentabilidade além do discurso, os preconceitos deixarão de existir.

O que você quis despertar nos visitantes com este projeto? Que mensagem pretendeu passar?
São várias as mensagens, mas a principal é mostrar que é possível viver de forma diferente, com muito menos, e mesmo assim se sentir bem por estar num ambiente harmônico, claro, bem ventilado, funcional, de forma e função bem resolvidas, sem a hostilidade das superfícies industriais. E ainda estar imbuído da sensação de estar contribuindo para evitar mais um grande descarte no planeta. Sustentabilidade de fato: não se consome tijolo, areia, cimento, água. Constrói-se uma só vez, pois pode funcionar como sua casa para sempre e em qualquer lugar do planeta, basta desacoplar, levar para onde quiser e ser feliz!