Na agenda do Sesc Pompeia, visitas guiadas com os curadores, sessões de curtas-metragens e debate com o artista

Foto: Everton Ballardin

Na reta final de exibição – até 2 de fevereiro, “Entrevendo”, de Cildo Meireles, no Sesc Pompeia, presenteia o público com eventos exclusivos. Os curadores Júlia Rebouças e Diego Matos, além de Marília Loureiro, assistente de curadoria, realizam seis visitas guiadas pela exposição, com percursos que revelarão a riqueza poética e a narrativa da trajetória do artista carioca, um dos nomes mais importantes da arte brasileira.

A mostra reúne cerca de 150 obras dos anos 1960 até os dias atuais numa área de mais de 3 mil m², com produção e expografia de Alvaro Razuk. Trata-se do maior acervo de Cildo Meireles já exposto na América Latina, preenchendo uma lacuna de quase duas décadas sem uma grande exposição nacional do artista.

As visitas são gratuitas e acontecem, às 19h, nos dias 14 e 28 com Júlia Rebouças; 21 e 30 com Diego Matos; e 23 com Marília Loureiro. Os ingressos devem ser retirados na bilheteria uma hora antes de cada atividade, para até 20 pessoas.

O Teatro do Sesc Pompeia também oferecerá, às 20h, três sessões de curtas-metragens seguidas de conversas com convidados. No dia 15, serão exibidos Inserções em circuitos ideológicos (1970/2013), dirigido pelo artista, e o curta Cildo Meireles (1979), de Wilson Coutinho. O bate-papo acontece entre a pesquisadora, historiadora e curadora Aracy Amaral e Diego Matos, curador da exposição.

No dia 22, é a vez de Gramática do Objeto (2000), de Felipe Sá e Frederico Morais. Após o filme, o crítico e curador Frederico Morais, fala ao público, com mediação da curadora Júlia Rebouças. Em 29 de janeiro, será apresentado o registro em super-8 da instalação Eureka/Blindhotland (1975), em sua primeira montagem na área experimental do MAM Rio. Júlia Rebouças e Diego Matos comandam a conversa com participação de Cildo Meireles.

Os três eventos terão ingressos distribuídos gratuitamente na bilheteria uma hora antes de cada atividade. A ocupação é para 340 lugares.

Fotos: Carol Mendonça

Entrevendo, obra que dá nome à exposição, foi projetada por Cildo Meireles em 1970 e realizada pela primeira vez em 1994. A instalação cilíndrica de madeira convida o visitante a entrar e caminhar em direção a uma fonte de vento quente, enquanto derretem em sua boca gelos de água doce e salgada. Entre o claro e o escuro, o frio e o quente, o doce e o salgado, o visitante experimenta sensações que transbordam o campo da visão e deflagram outras maneiras de perceber.

Fotos: Carol Mendonça

O trabalho está na Área de Convivência, livre de salas ou paredes, junto com outras grandes instalações do artista, como Amerikkka (1991/2013). Pela primeira vez no país, a obra que já foi exibida em grandes instituições internacionais, como o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, em 2013, apresenta aproximadamente 17 mil ovos de madeira e 33 mil balas de armas de fogo. Caminhando sobre a plataforma de ovos e sob a placa de projéteis, é possível refletir sobre uma América marcada por guerras, desde os tempos coloniais, até recentes ataques realizados por organizações de extrema-direita, numa referência à Ku Klux Klan, presente no triplo K do título da instalação.

Fotos: Carol Mendonça

Missão, Missões (Como construir catedrais) (1987/2019) ganha uma nova versão, em formato circular. Exibida na importante exposição Magiciens de la Terre, no Centro Pompidou de Paris, em 1989, o trabalho é constituído por milhares de moedas, ossos de boi, centenas de hóstias e trata dos processos missionários de catequização dos povos indígenas. “Quis construir uma espécie de equação matemática, muito simples e direta, conectando três elementos: poder material, poder espiritual e uma espécie de consequência inevitável e historicamente repetida dessa conjunção, que foi tragédia”, diz Cildo Meireles.

Fotos: Everton Ballardin

A obra se relaciona com Olvido (1987-1989), que traz uma tenda indígena coberta por cédulas de dinheiro de países americanos. Situada no meio de uma área circular com toneladas de ossos de boi e circundada por uma parede de velas, a tenda abriga um ruído de motosserra, que se propaga pelo espaço expositivo. Esses trabalhos, em conjunto, discutem a história do Brasil e das Américas, marcadas pela violência colonial que repercute ainda hoje nas estruturas sociais e políticas. Para além de lançar um olhar crítico sobre o passado, a obra de Cildo Meireles se atualiza a cada exibição, de modo a ressignificar questões da contemporaneidade.

Foto: Carol Mendonça

Outra grande instalação desta mostra é Antes, obra concebida no ano de 1977 e realizada pela primeira vez em 2003, no Musée d’art Moderne et Contemporain de Strasbourg. Em montagem inédita no Brasil, ela permite ao público subir uma escada que leva a uma plataforma com uma cadeira e uma mesa. Sobre seu tampo, é possível observar uma outra escada, em escala menor, que leva a uma segunda plataforma, de onde parte outra escada. Ao criar uma nova relação de escala tanto com o ambiente expositivo, como com o corpo de quem o experimenta, o trabalho altera a percepção espacial do visitante.

Fotos: Carol Mendonça

A série Blindhotland (1970), por sua vez, é pela primeira vez apresentada na íntegra. Na Área de Convivência está a icônica Eureka/Blindhotland (1970-1975), cujo nome origina-se da interjeição supostamente pronunciada pelo matemático grego Arquimedes, quando descobriu a resposta para o dilema acerca do volume e densidade dos corpos. Na obra, Meireles experimenta diferentes relações entre peso, densidade e volume de objetos, como nas centenas de bolas de borracha aparentemente idênticas, questionando a dominância da percepção visual.

Fotos: Carol Mendonça e Everton Ballardin

Podem ser vistos ainda neste mesmo espaço projetos, desenhos, ações, objetos e documentos da série Arte Física (1969), os trabalhos Zero Dollar (1978-1984/2013) e Zero Real (2013), a série Malhas da Liberdade (1976/2008), os projetos de Volumes virtuais (1968-1969), e Ocupações (1968-1969), entre outros.