Batizada Deca Lab, a nave espacial pousada na Casa Cor São Paulo simula imagens de Marte e reúne os novos produtos criados pelo arquiteto para a marca

Radicado em Milão há mais de 20 anos, o arquiteto pernambucano Ricardo Bello Dias pousou uma nave espacial em plena Casa Cor São Paulo. O projeto desenvolvido para a Deca segue a premissa do tema da mostra deste ano: Planeta Casa, e pretende despertar o interesse do público para questões que levem a uma vida mais sustentável. Apoiada sobre um espelho d’água com gêiseres, esse laboratório futurista de 8 m de diâmetro está dividido em quatro áreas, cada uma representando um campo da criatividade. Nesta entrevista, Bello Dias detalha o conceito do espaço. Ao fim do evento, em 4 de agosto, a nave será montada na fábrica da empresa em Jundiaí.

 

Como é essa nave espacial que você projetou?

A nave remete a um laboratório de cientista, dividido em quatro estações: Arte, Design, Ciência e Engenharia. Foi inspirada no Ciclo de Krebs da Criatividade, esquema desenvolvido por Neri Oxman, arquiteta e designer membro do MIT Media Lab. Ela diz que, por meio dessas quatro matérias, você gera uma criatividade ideal para projetar. Dessa forma, você estará percorrendo todos os níveis de pesquisa para realizar um bom projeto. Pela engenharia, você analisa a parte a técnica. Pela ciência, a questão dos materiais. Pelo design, a forma correta. E pela arte, a emoção. Seguindo esses quatro campos, você terá um projeto mais ético, mais correto e adequado.

 

Você aplica esse conceito no seu estúdio?

Sim, e a gente vive num momento em que todos deveriam fazê-lo. Acho importante o designer dividir suas ideias com outras profissões, com cientistas, engenheiros… E isso normalmente acontece quando você está fazendo um projeto de design para uma empresa. Você acaba entrando em contato com engenheiros para desenvolver o produto, é um processo quase natural. Mas a ideia aqui é promover esse conceito, para que as pessoas entendam que, antes de fazer um projeto, é importante fazer mais pesquisa e não ser superficial. No fundo, a ideia é essa: fazer uma pesquisa mais aprofundada por meio dessas quatro matérias. Ao criar um produto, você precisa saber se o material aplicado quando envelhecer será um lixo químico para o planeta. Considero uma obrigação ter hoje esse processo de desenvolvimento.

 

O que você está querendo despertar nas pessoas com esse espaço?

Quero acordá-las para o que está acontecendo no mundo. A gente vem agredindo demais nosso planeta. O tema da Casa Cor deste ano é Planeta Casa. Quero despertar as pessoas para uma realidade catastrófica. Os cientistas já sabem a data de quando o mundo vai acabar. É a sexta extinção e não sabemos quem viverá nesse mundo, não sabemos se serão micro-organismos ou outras espécies, ninguém sabe. A nave representa um manifesto, um pouco irônico, do que estamos vivendo e de como podemos melhorar essa realidade adotando um modo de vida mais saudável e equilibrado.

 

O que há na nave?

Fiz quatro torneiras relacionadas a cada um dos conceitos do ciclo: Arte, Design, Ciência e Engenharia. São produtos muito sensoriais, que fazem você interagir por meio do toque. Num modelo, você gira um anel para liberar a água; em outro, com formato de bastão, você gira esse corpo para a água sair. São produtos que fazem você ter uma relação diferente com o objeto diário, quase de afeto. Na nave, você ainda tem um banheiro e uma cama, parecida com um escâner, para o cientista regenerar o corpo e curar algum mal.

 

Quando os produtos estarão disponíveis no mercado?

Ainda são protótipos, feitos em apenas dois meses, e ainda levarão algum tempo para serem lançados. Os representantes da Deca vieram visitar o espaço e me fizeram a mesma pergunta. As peças têm feito bastante sucesso e acho que impactou por ser diferente. Provocam situações inusitadas que levam as pessoas a rirem, a se surpreenderem, terem emoção. Por isso a arte entra nesse processo de projetar. O único objetivo da arte é emocionar. O design não precisa emocionar, precisa ser ergonômico. Depois, entra a engenharia e a ciência para dar conta da parte mais científica do projeto para tornar o produto mais ético e sustentável.

 

A questão da sustentabilidade está sempre permeando seus trabalhos…

Sim, é preciso pensar no ciclo completo do produto, no que ele se transformará quando envelhecer. Fizeram um estudo na parte mais profunda do oceano e encontraram plástico. Tem até um filme “Ocean Man” que mostra esse mundo aquático. Eles levam plásticos e barcos de guerra para as costas das cidades como um protesto contra essa agressão que temos feito aos nossos mares. Você vê que até os filmes de ficção estão tentando conscientizar as pessoas. Precisamos estar atentos e ser responsáveis. Tudo o que se cria terá um fim e esse fim precisa ser nobre. Não faça nada que não seja para melhorar a vida das pessoas porque se não você estará criando apenas um lixo. Arquitetos e designers têm grande responsabilidade nisso, assim como as indústrias.