Na nossa visita à mostra carioca, pedimos a arquitetos e designers de interiores para contarem o conceito de seus projetos. Nessa seleção, contemplamos dez ambientes com as entrevistas de cada um deles

Domingo de sol. Vista estonteante para a Baía de Guanabara. No horizonte, o Museu do Amanhã, a Ilha Fiscal, um veleiro, uma lancha e até um cargueiro, daqueles enormes que bloqueiam o vento e a visão. Inserida nesse contexto, a Casa Cor Rio 2019 deve ser saboreada com tempo e energia. São 44 espaços, ocupando a construção histórica do Edifício Touring (1926) – seu arquiteto, o francês Joseph Gire, é o mesmo do Belmond Copacabana Palace – e um galpão anexo com lofts, lojas e restaurante. A seguir, mostramos alguns de nossos ambientes favoritos e o que cada profissional contou sobre eles.

“Ter aberto ao público esse edifício, que é um ícone da cidade, foi um privilégio. Esse tipo de oportunidade é imperdível, a gente não podia deixar de fazer a Casa Cor Rio aqui.”

Patricia Quentel, franqueada há 29 anos da Casa Cor Rio com Patricia Mayer.

“Estou em uma fase de usar cores mais acolhedoras”, declara o francês Jean de Just, responsável pela Cozinha Deca, no primeiro piso do edifício Touring. O espaço de 65 m² vai além da área gourmet, com sala de jantar e lavanderia integradas, pensado para famílias que gostam de receber. Azul, laranja, verde e vermelho colorem o teto dos três ambientes por meio da pintura criada pela artista plástica Naiara Bandoli. A paleta é replicada nos móveis e nos acessórios eleitos pelo arquiteto, que selecionou também peças étnicas na composição, sua marca registrada. A surpresa fica por conta da área dos pets na lavanderia: cuba especial para lavar os animais e gaveta, no armário da Ornare, com os potes de água e alimentos. Outra boa solução é a horta de temperos junto da janela, praticidade para quem cozinha.

Marcia e Manu Müller, mãe e filha, assinam a Sala da Colecionadora, um espaço voltado para a apreciação das obras de arte. “Imaginamos uma galeria sensorial”, explica Marcia. A dupla contou com o olhar minucioso da curadora Vanda Klabin para o garimpo das peças de artistas como René Machado, Hilal Sami Hilal e Frida Baranek, da Cassia Bomeny Galeria. Dispostos no centro, os móveis propõem ao visitante uma nova perspectiva. Na varanda, voltada para a Baía da Guanabara, uma bicicleta ergonômica convida a exercitar em meio a telas e fotografias.

“Eu amo chá”, revela Gisele Taranto, responsável pelo CH`A Bar, no terraço do último piso do Edifício Touring. A paixão pela bebida regeu o projeto, que segue três cores na paleta, inspiradas nos chás de mesmo nome: preto, branco e verde. Móveis de área externa da recente coleção da Sollos, com assinatura de Jader Almeida, ambientam o espaço. Há também uma criação exclusiva do designer: o ombrelone Sunshade, cujos para-sóis podem ser recolhidos para resistir aos fortes ventos marítimos. A curadoria de arte é de Vanda Klabin, que convidou Marcelo Catalano para fazer uma intervenção na Torre do Relógio. Anexo ao terraço com jardineiras de flores e ervas, a loja de chá vende múltiplos sabores da bebida, incluindo uma edição especial batizada com o nome da arquiteta.

“A gente pensou nesse estúdio para uma chefe de cozinha francesa, que passa temporadas no Rio de Janeiro”, explica Paula Neder, autora do Estúdio HUM para Leroy Merlin em parceria com o Coletivo PN. Entre as soluções aplicadas está o uso de telhas revestidas de tecido verde como painel por trás do sofá. O item é produzido com garrafas PET. No teto, desenhos da ilustradora carioca Clode Imperial trazem mais poesia para o espaço integrado. Móveis de design, como a poltrona do francês Jean Prouvé, se misturam às peças antigas do AD Studio, criando uma ambientação high-low.

“Minha intenção era trazer um estilo art déco, sem perder a contemporaneidade”, explica Isabella Lucena, responsável pela concepção do Restaurante da Baía, último ambiente do galpão anexo. Como o nome sugere, o espaço tem a vista privilegiada para o Museu do Amanhã e a Baía de Guanabara, e dispõe de espreguiçadeiras para quem quer apreciar a paisagem. Isabella também planejou uma arquibancada para quem aguarda mesa, tirando partido do generoso pé-direito do ambiente. No interior, um painel ripado de MDF cinza reveste parte das paredes, enquanto as formas arredondadas dos biombos – desenhados por ela –, mesas e luminárias remetem ao estilo do prédio.

“Nós começamos o layout do espaço pelo tapete, essa foi nossa primeira escolha”, contam Mariana Junqueira e Adriana Esteves, arquitetas do Docas Lounge. A ideia da dupla estreante foi ambientar a área de circulação, de frente ao restaurante, com móveis soltos. Os balanços de André Ferri são destaque, assim como a mesa de centro revestida de azulejos e o aparador do século XVIII, que podem ser facilmente transportados para outros espaços. Entre as peças assinadas, a poltrona R, de Zanine Caldas, e a luminária Memory, de Jader Almeida.

“Quis criar um ambiente que fosse leve, carioca, easy going”, diz o arquiteto Diego Raposo em sua primeira participação na mostra carioca. Seu Estúdio do Viajante, no galpão anexo ao edifício principal, foi elaborado para um jovem minimalista, que tem a casa como espaço de recolhimento. Uma divisória solta das paredes e posicionada perpendicularmente separa o banheiro da área do quarto. A composição dos móveis contempla nomes do design nacional, como Sergio Rodrigues (poltrona), Gustavo Bittencourt (cadeiras), Zanini de Zanine (mesa lateral) e Bruno Faucz (aparador de vidro).

“Era um grande desafio fazer um layout funcional e que não atrapalhasse a circulação”, conta a veterana de Casa Cor Rio, Paola Ribeiro. Ela assina o Salão do Cais, espaço central no térreo. Como o nome indica, trata-se de um grande salão, onde a designer criou um living central e alguns ambientes anexos, divididos por meio de painéis de treliça. No mobiliário, a poltrona Alta, de Oscar Niemeyer, se combina com itens da Artefacto. Já a cuidadosa seleção de obras de arte dá o tom da decoração, com peças vistosas, como a escultura de Tomie Ohtake na sala de jantar e a instalação de espelhos de Gustavo Prado. As paredes, forradas de mármore, e os lustres, que receberam redomas de metal, são originais do edifício dos anos 1920.

“A gente queria desde o começo trazer mais alma ao ambiente”, conta Natalia Lemos e Paula Pupo Cossenza, dupla à frente do escritório Toca Arquitetura. Em seu primeiro ano na mostra carioca, as arquitetas elegeram Ney Matogrosso como inspiração no Estúdio Elã. Uma conversa com o músico foi essencial para guiar o projeto, que traz o mesmo clima de refúgio do seu sítio em Saquarema, no interior do Rio de Janeiro, como os tons terrosos, proximidade com a natureza e materiais naturais. Alguns objetos do décor são de Ney, assim como o figurino localizado logo na entrada do ambiente, utilizado por ele em um show do grupo Secos e Molhados, em 1973.

“Meu espaço é uma declaração de amor ao Rio de Janeiro”, contou Leo Romano. O encontro do verde com o azul, ora do céu ora do mar, é a combinação inspirada nas cores da capital fluminense que o arquiteto goiano traz para o lounge Club Leo, em sua primeira participação na mostra carioca em parceria com a artista plástica Ieda Jardim.