O imóvel de 1949 na Califórnia, marco da arquitetura moderna, serviu de referência para a construção de metal e vidro erguida a 22 km da capital paulista

A visita, em 2010, à morada dos designers Charles e Ray Eames, em Pacific Palisades, próximo de Santa Mônica, nos Estados Unidos, despertou o desejo ao casal Rachel Hoshino e Tomás Cunzolo de replicar o modelo de construção no terreno comprado pouco antes do casamento. Assinada pelo escritório Andrade & Morettin – o mesmo que projetou o edifício do Instituto Moreira Salles na capital paulista, a casa se revela agora ser um refúgio de paz e reflexão em meio à pandemia.

“Morar aqui é uma alegria, tanto pela arquitetura como pelo contato com a natureza. O imóvel é composto por um único bloco, com quartos e banheiros pequenos, mas confortáveis, apenas para dormir. Todo o projeto favorece e incentiva o convívio”, diz o administrador de empresas Tomás Cunzolo, que vive no bairro desde os 6 anos, mesma idade de seu filho Davi.

A definição dos arquitetos que traçariam o projeto aconteceu logo após a lua de mel do casal, quando Tomás visitou o escritório de Paulo Mendes da Rocha. “Nesse encontro, perguntei quais os nomes da nova geração que ele apostaria. O do Andrade & Morettin foi um dos mencionados”, recorda-se Tomás.

Ao procurar a dupla, em 2010, o casal encontrou o escritório deles, na Vila Buarque, de portas abertas. “Sentimos como um sinal de que realmente seriam ideais para executar nosso sonho de moradia”, conta Tomás. Outro fator que influenciou na decisão foi uma pequena casa em Carapicuíba, nos moldes de um pavilhão japonês, planejada pelos arquitetos.

A proposta do escritório para o casal contemplava uma casa coberta por uma estrutura metálica única com espaço de 60 cm até as telhas para a circulação do ar, voltada totalmente para o terreno, com a garagem em cima e um platô embaixo, dando privacidade. “Nos apaixonamos pelo projeto e solicitamos poucas alterações do original.”

Apesar de o método de construção ser simples e rápido, Tomás e Rachel tiveram dificuldade de encontrar profissionais aptos à execução. “Os orçamentos vinham bastante díspares. Levou certo tempo até encontrarmos os parceiros ideias para construir nossa casa. Passaram-se quatro anos até ela ficar pronta.”

A implantação do paisagismo começou quando o casal se mudou, com ipês oferecendo sombra para a fachada frontal da casa. Hoje, flores e folhas do jardim viram arranjos, espalhados pelos ambientes. Nesses dias de isolamento social, Davi ajuda a escolhê-las, brincadeira que se estende até o ateliê da mãe, erguido num canto do terreno, onde o menino pinta, desenha, colore. “Nossa área interna é muito boa, mas o melhor daqui é poder pisar na grama, sentir o sol, a natureza e olhar as estrelas”, diz Tomás.

Com poucos móveis e objetos, a casa se transformou num espaço de experiências, onde a preocupação em se manter tudo organizado inexiste. “No nosso estilo de morar, privilegiamos itens como cerâmicas, esculturas, gravuras e pinturas de amigos e artistas que admiramos e que nos fazem sentir bem. São essas peças que trazem lembranças e sentimentos positivos, nos inspiram e nos elevam o espírito.” Livros, fotografias emolduradas e obras de arte completam essa atmosfera afetiva.

Na ampla sala de pé-direito altíssimo, chama a atenção a tapeçaria estampada, vinda da residência da avó da proprietária, em Petrópolis. “Apesar de um pouco desbotada pelo tempo, sinto como se fosse um pequeno ‘altar’, que me faz lembrar dessa casa da minha infância”, afirma. Nesse período de isolamento social, Rachel diz estar compreendendo que viver uma vida simples não é o mesmo que viver uma vida essencial. “O essencial parece ser um conceito absoluto. Você pode ter o não-essencial de forma simples, como, por exemplo, a decoração. Por outro lado, pode ter o essencial de forma sofisticada, como a alimentação natural.”

Pequenos prazeres agora parecem ainda mais especiais. “Estou ainda refletindo sobre o simples ato de tomar uma xícara de café de frente ao jardim e a necessidade de ter 14 modelos de xícaras no armário; sobre ter uma boa biblioteca ou tempo para ler. O tempo, aliás, que tanto tentamos preencher continuamente, é o que aparece no topo da minha lista do essencial: tempo para não se fazer nada, apenas estar vivo. Vejo que o simples é leve, mas o essencial é libertador”, considera.

Fotos Tomás Cunzolo

ENGLISH VERSION

Eames House inspires open house to the garden in Greater São Paulo

The 1949 property in California, a landmark of modern architecture, served as a reference for the construction of metal and glass erected 22 km from the capital of São Paulo

The visit, in 2010, to the home of designers Charles and Ray Eames, in Pacific Palisades, near Santa Monica, in the United States, aroused the desire of the couple Rachel Hoshino and Tomás Cunzolo to replicate the construction model on the land purchased shortly before the Your marriage. Signed by the Andrade & Morettin office – the same one that designed the Moreira Salles Institute building in the capital of São Paulo, the house now proves to be a haven of peace and reflection in the midst of the pandemic.

“Living here is a joy, both for the architecture and the contact with nature. The property consists of a single block, with small but comfortable rooms and bathrooms, just for sleeping. The whole project favors and encourages socializing, ”says business administrator Tomás Cunzolo, who has lived in the neighborhood since he was 6, the same age as his son Davi.

The definition of the architects who would design the project took place shortly after the couple’s honeymoon, when Tomás visited Paulo Mendes da Rocha’s office. “At that meeting, I asked what names of the new generation he would bet on. Andrade & Morettin’s was one of those mentioned ”, recalls Tomás.

When looking for the duo, in 2010, the couple found their office, in Vila Buarque, with open doors. “We felt it as a sign that they would really be ideal to implement our dream of housing,” says Tomás. Another factor that influenced the decision was a small house in Carapicuíba, similar to a Japanese pavilion, planned by the architects.

The office proposal for the couple contemplated a house covered by a unique metallic structure with a space of 60 cm up to the tiles for air circulation, totally facing the terrain, with the garage above and a plateau below, giving privacy. “We fell in love with the project and requested few changes to the original.”

Although the construction method was simple and fast, Tomás and Rachel had difficulty finding professionals capable of execution. “The budgets were quite different. It took some time before we found the right partners to build our home. Four years passed before it was ready. ”

The implantation of landscaping started when the couple moved in, with ipe trees providing shade for the front facade of the house. Today, flowers and leaves from the garden become arrangements, scattered throughout the environments. In these days of social isolation, Davi helps to choose them, a game that extends to his mother’s studio, built in a corner of the land, where the boy paints, draws, colors. “Our indoor area is very good, but the best thing here is to be able to step on the grass, feel the sun, nature and look at the stars”, says Tomás.

With little furniture and objects, the house has become a space for experiences, where the concern to keep everything organized does not exist. “In our style of living, we favor items such as ceramics, sculptures, prints and paintings by friends and artists that we admire and that make us feel good. These are the pieces that bring memories and positive feelings, inspire us and elevate our spirit. ” Books, framed photographs and works of art complete this affective atmosphere.

In the large, high-ceilinged room, the patterned tapestry from the home of the owner’s grandmother in Petrópolis draws attention. “Despite being a little faded by time, I feel like it is a small ‘altar’, which reminds me of this house from my childhood,” he says. In this period of social isolation, Rachel says she understands that living a simple life is not the same as living an essential life. “The essential thing seems to be an absolute concept. You can have the non-essentials in a simple way, such as decoration. On the other hand, you can have the essentials in a sophisticated way, like natural food. ”

Small pleasures now seem even more special. “I am still reflecting on the simple act of having a cup of coffee in front of the garden and the need to have 14 models of cups in the cupboard; about having a good library or time to read. The time, in fact, that we try to fill continuously is what appears at the top of my list of essentials: time to do nothing, just to be alive. I see that the simple is light, but the essential is liberating ”, he considers.

Pictures Tomás Cunzolo