São onze nomes relevantes da arte nacional que trilharam caminhos distintos ao conceber as obras inéditas

Fotos: Junior Simões. 

Os jardins da Casa Roberto Marinho, construção neocolonial de 1939 no Cosme Velho, no Rio de Janeiro, é tema da mostra “O Jardim”, inaugurada hoje (6) para o público. A convite de Lauro Cavalcanti, diretor e curador da Casa, onze artistas contemporâneos, como Angelo Venosa, Beatriz Milhazes, Carlito Carvalhosa, Hilal Sami Hilal, Maria Bonomi e Regina Silveira, assinam múltiplos – serigrafias, xilogravuras, esculturas e um desenho – que ocupam o térreo do imóvel onde viveu o jornalista Roberto Marinho. Aos pés da Floresta da Tijuca e um dos primeiros projetos de Roberto Burle Marx em uma residência, o jardim foi o disparador para a imaginação do seleto grupo que trilhou caminhos distintos.

Elemento primordial da casa, abrigando espécies da mata atlântica, o paisagismo contou com a contribuição de Attílio Corrêa Lima e, nos anos 1990, Isabel Duprat foi responsável por uma remodelação, retomando as ideias originais de Burle Marx. “É um jardim para ser vivenciado e não apenas olhado como ornamento. O paisagista usou ali espécies nativas que, até então, eram relegadas aos quintais nos fundos das residências. A casa do Cosme Velho é, nesse sentido, um exemplo precoce e bem-sucedido do paisagismo tropical”, avalia Lauro Cavalcanti.

Em “O Jardim”, o público encontrará xilogravuras, objetos e serigrafias individualmente interferidas. A curadoria optou por incluir também as matrizes e registros dos processos de cada artista, revelando suas práticas no ateliê. “É um mergulho nos jardins concretos e imaginários de cada um”, afirma o curador. A coletiva ficará em cartaz até 26 de abril de 2020, com visitação de terça a domingo, sempre das 12h às 18h.

Abaixo, veja os depoimentos de alguns artistas sobre suas obras.

Flor de Margarida em Vermelho, Pink e Lilás’ (serigrafia, 33,5 x 29,5 cm)

Beatriz Milhazes: “Me encantam os elementos que encontramos na natureza. E, como referência, as muitas maneiras de representação dela, seja na arte decorativa, na arte popular ou na arte indígena – na intimidade imaginária. ‘Flor de Margarida em Vermelho, Pink e Lilás’ vive no jardim maravilhoso do universo cromático”.

Sem título (impressão UV sobre compósito de alumínio e impressão 3D)

Angelo Venosa: “Adotei uma solução simples, a partir de um trabalho que eu já vinha desenvolvendo com mapas de vegetação, e criei um objeto. Uma placa de compósito de alumínio, com imagem vegetal impressa em 3D, explora formas orgânicas. Não nomeei o trabalho, aliás, raramente dou título. Nomear é enquadrar e, em alguma medida, o verbo conduz o espectador. É tão mais interessante deixar em aberto…”.

O Jardim’ (xilografia impressa à mão em papel japonês, 3 matrizes e 4 cores, 50 x 70 cm)

Maria Bonomi: “A temática bateu forte na minha imaginação: local para viver e para sonhar. Tudo escolhido, nada ao acaso, mas “deve parecer imprevisto”! Plantas e arbustos roubados do seu habitat e reordenados. Mato pasteurizado em oposição à invenção de um entorno mágico (Burle Marx). Escadas e passeios, degraus e calçadas. A cor fantasia de jardim para recordar, caminhando. O processo xilográfico foi “plantado” em três matrizes, duas de madeira canjarana maciça e uma de cedrinho compensado. Gravei com goivas e burís, na placa em verde, o significado vegetal; e na outra, os caminhos dominados pelo andar entre “flores” em laranja-rosa (vermelho). Numa terceira matriz geometrizada, entalhei com faca e formão para somar transparências referentes às memórias estruturais, preparando um jardim. Tudo em conluio, pois também os perfumes do jardim estão presentes, na soma das transparências impressas a mão em papel japonês, com colher de bambu”.

Jardim Infinito (serigrafia)

Suzana Queiroga: “Partindo do espaço proposto, me relacionei com o lago, que tem formas orgânicas e curvas contínuas, e contém água, fluido essencial que circula não só na cidade, mas nos corpos. A escala pequenina da ponte japonesa (instalada nos jardins da casa), quase cenográfica, também me encantou: é muito expressiva! Usei a cor da água, o verde da ponte e da natureza e, bem sutilmente, o tom dos flamingos, que antes habitavam aquela área. Me agradou essa solução abstrata que fala do jardim infinito, foi meu intuito criar uma imagem que sugerisse continuidade, um circuito. É quase uma meditação infinita, muito minimalista, inspirada na sensação extremamente agradável que tenho naquele jardim”.

Momentos (xilogravuras divididas em 4 grupos, 50 X 70 cm)

Vânia Mignone: “Vi aqui a cara possibilidade de retornar à prática da xilogravura, que aprendi ainda na faculdade, quando me foi apresentada a obra de Oswaldo Goeldi. Posso dizer que já fui apresentada a essa técnica pela via da subversão, com a interferência direta da mão do artista. Montei a base do papel utilizando folhas impressas: tenho horror à superfície branca. Nunca compro papel, prefiro sempre produzir os meus artesanalmente, testando cor, espessuras, ondulações e deixando vazar registros anteriores. O papel é um agente do meu processo, que durou mais de dois meses, nesse caso. O resultado se propõe a quase monotipias, com aspectos muito singulares. São quatro momentos palatáveis de alguém que poderia estar passeando num jardim”.