Palácio das Mangabeiras, em Belo Horizonte, abre pela primeira vez ao público para sediar a mostra de decoração com 60 ambientes

Inaugurado em 1955 para ser a residência oficial dos governadores de Minas Gerais, o Palácio das Mangabeiras, projeto inicial de Oscar Niemeyer e com jardins de Roberto Burle Marx, sedia a 25ª edição da Casa Cor Minas até 13 de outubro. São 60 ambientes assinados por 94 profissionais que propõem uma reflexão sobre como nossa relação com o mundo influencia o jeito de morar. Mostramos aqui seis desses espaços, construídos de forma a agilizar a obra, reduzir a geração de resíduos e também os custos.

O emblemático edifício de arquitetura moderna receberá a mostra de decoração durante o período médio de seis meses pelos próximos quatro anos. A parceria garante obras de infraestrutura, restauro, recuperação manutenção e vigilância do espaço. “Só valorizamos aquilo que conhecemos. Então, temos uma luta muito grande em preservar o patrimônio histórico e consideramos importante que a população conheça, entenda a beleza e nos ajude, de forma conjunta, a conservar o que ainda restou de memória na cidade”, considera Eduardo Faleiro, diretor do evento.

Em meio a um bosque de eucaliptos, suspenso a seis metros do chão, o Refúgio, do arquiteto Júnior Piacesi, traz a natureza e a desconexão digital como mote do ambiente de 134 m², sendo 57 m² de área interna. Revestida por espelhos, a construção, apoiada sobre estruturas metálicas, não cria ruído na paisagem e multiplica a visão das árvores. Uma grande passarela liga a rua ao espaço e investe em uma penumbra branca de tecido reciclado, dando transparência e leveza. Vidro, aço, concreto, couro e seixos compõem o portfólio de materiais. “O intuito foi trazer o conceito slow living, dando luz a um universo menos digital e mais tranquilo”, afirma o arquiteto. Internamente estão dispostos a cozinha, a mesa, a cama, o closet, o banheiro e uma área de meditação, tudo integrado com o concreto do piso e das placas de cimento que encapam uma parede longitudinal. Do lado oposto, o fechamento é de vidro, assim como parte do teto, que evidencia a luz natural e o bosque do terreno. Destaque para as poltronas de Carlos Motta, poltrona Lina, da Líder, em homenagem à Lina Bo Bardi, cama da São Romão e luminárias da Floss, da A. de Arte. A iluminação também vem dos eucaliptos.

No Salão Nobre e Sala de Jantar, de Pedro Lázaro, traços da cultura contemporânea dialogam com a tradição contida no Palácio das Mangabeiras. A sala de jantar foi atualizada, com pequena área de finalização dos pratos, contendo cooktop, cuba de apoio de aço inoxidável e torneira embutida. Além da mesa de jantar, há um estar com bar e adega e uma área externa para as noites de verão. Paredes revestidas de pinho-de-riga, piso de tacos de peroba, belas aberturas e um forro em três planos diferentes compõem a base do ambiente. Os elementos originais foram preservados e restaurados em sua totalidade. Um biombo de vidro all clear protege as paredes, dando aspecto simbólico do sagrado e intocável. De curvas suaves, o sofá, desenhado por Pedro e Danilo Lopes (Neobox), convive em harmonia com as poltronas presidenciais e a mesa Guanabara, de Jorge Zalzsupin, e a poltrona ON, de Oscar Niemeyer (Etel). O bar Cinda reverencia o movimento moderno e tem suas partes ripadas pensadas a partir de um portão de uma casa finlandesa de 1931. O desenho também é do arquiteto. Cadeiras Spoleto, de Marcel Breuer, na mesa de jantar, representam o design modernista no âmbito global. No pátio externo, está a namoradeira de Zanine Caldas emoldurada pelo porcelanato cinza. Destaque para a luminária-instalação, uma parceria da multiartista Rita Lessa com A. de Arte.

Recuperar parte da história da obra feita pelo mestre do paisagismo. Esse foi o desafio de Nãna Guimarães ao realizar o Jardim Burle Marx. O local, com 400 metros, restaurou os jardins do Palácio das Mangabeiras. Para recriar parte desse ambiente da década de 1950, a profissional obteve seis espécies de plantas nativas brasileiras: a Guaimbé, Camará, Bela Emília, Trapoeraba Roxa, Giesta e Agave.

A proposta do Ateliê do Chef, de Nídia Duarte, é ser um espaço que funcione como um laboratório de experimentações, mantendo tudo ao alcance das mãos. Para isso, conta com uma horta de especiarias, distribuída em vasos suspensos que mais parecem discos voadores. Se o lounge é um convite explícito ao descanso, o gazebo é um aceno prazeroso para o ato de cozinhar. No acesso principal, patamares irregulares foram feitos na pedra Hitam. Já na parte lateral, eles aparecem em forma de rampa, que dá acesso ao lounge. Embora descoberto, o espaço foi pensado como um living, com móveis orgânicos dispostos de maneira irregular. Sobre uma prancha de madeira, o sofá grafite é próprio para áreas externas e tem, como complemento, as almofadas e as mantas em tons terrosos e cinza-claro. Para reforçar o encantamento do lugar, duas poltronas Painho (Tidelli), de Marcelo Rosenbaum, pufes de corda náutica e tapete de Elisa Atheniense, fazem composição harmoniosa.

Esqueça os armazéns convencionais. No Origem Minas, por Cynthia Silva, a proposta é de boutique, apresentando de forma peculiar uma vitrine com uma seleção com o que há de melhor no estado, para explorar experiências sensoriais. As curvas da arquitetura interna, com teto abaulado, lembram porões, lugares propícios para a cura da cachaça. O diferencial é que, em vez da penumbra, há claridade. No piso branco, pensado como elemento da arquitetura mineira, foi utilizado refugo de pedras naturais, aqui, trabalhadas à mão, de forma bem artesanal, levantando a questão da sustentabilidade e reforçando o conceito e a história de cada produtor. Nas paredes, também brancas, a textura lembra um reboco rústico. O mobiliário, desenhado pela arquiteta, tem o em freijó como elemento principal, entre mesas de canto de parede, bancadas de exposição e guarda-estoque em forma orgânica, suportes de madeira para queijos, prateleiras e um grande balcão de venda e exposição dos produtos. A iluminação embutida na maior parte do espaço conta ainda com o charme dos pendentes sobre o balcão. O projeto conta com a parceria do Sebrae-MG, idealizador do projeto Origem Minas, que apresenta uma seleção de produtos do agronegócio regional para o espaço.

A Sala das Palmeiras, do Estúdio Sala, permite a contemplação ao se abrir ao exterior, com vista para a Serra do Curral. Um tipo de sala-varanda, que une de forma harmônica elementos tecnológicos à formatos orgânicos da natureza. O mobiliário rarefeito e com poucas cores propõe um estilo moderno.