Entre os destaques da feira, as instalações do Estúdio Mameluca, inspirada em ninhos de pássaros, e a Senso Comum, com objetos em pedra de Claudia Moreira Salles e irmãos Campana

A feira de arte e design que acontece em Basel, na Suíça, reúne nessa época do ano centenas de galerias e artistas de várias partes do mundo para mostrar novidades e achados. Pela primeira vez no evento europeu (de 11 a 16 de junho), o Estúdio Mameluca montou no piso térreo, junto a outras instalações cujo tema comum é Terra, a Manimal: três núcleos de escala humana inspirados nos ninhos dos pássaros. A obra da dupla, concebida no Rio de Janeiro e em Portugal, chama a atenção do público por seu ineditismo e sensorialidade. Outros brasileiros com obras na Design Miami Basel são os irmãos Campana e Claudia Moreira Salles. A designer, aliás, circulou por lá e nos contou sobre seu trabalho e também do que viu e gostou.

Fotos: James Harris

Observar os ninhos dos pássaros para repensar a relação do homem com a natureza. Essa pesquisa do Estúdio Mameluca, formado pela brasileira Ale Clark e pelo português Nuno FS, resultou na instalação Manimal, planejada com a galeria Mercado Moderno. A dupla mostra três habitats na escala humana inspirados nos ninhos do joão-de-barro, do joão-graveto e do tecelão. “Esses pássaros usam resíduos da natureza – barro, gravetos e folhas – para a fabricação de suas casas, não causando impacto ao planeta”, conta a designer.

Os núcleos, em formato de espiral, que preservam as técnicas de construção dos animais, foram revestidos com os resíduos naturais de cada espécie na parte central e com resíduos urbanos – papel, madeira e plástico – na externa. No interior, o visitante encontra o ninho da ave, cheiros da terra, texturas e os cantos dos pássaros, numa completa experiência sensorial. “Nossa ideia foge da abordagem comercial da feira e isso é maravilhoso. Estamos tendo a oportunidade de experimentar e repensar conceitos”, considera Ale Clark.

Fotos: Nuno Souza Dias e divulgação

Duas peças de Claudia Moreira Salles estão expostas em Commom Sense na Design Miami: o cabideiro Angra e o centro de mesa Compasso. Ambos feitos com diferentes tipos de pedras portuguesas no projeto curado por Guta Moura Guedes, que estreou no Brasil em 2017 numa exposição na Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi, em São Paulo. Agora, esses e outros itens de sete designers, como o par de anéis dos irmãos Campana com fibra de coco, o vaso e o centro de mesa o inglês Michael Anastassiades, o bowl do também inglês Jasper Morrisson despontam em uma construção de vidro que remete à casa da arquiteta ítalo-brasileira.

Essa foi a primeira vez de Claudia no evento que nos deu os depoimentos abaixo:

“Nesses dois itens minha ideia foi trabalhar as sobras das marmorarias, que acabam desperdiçando material para atender as demandas das obras de arquitetura. Eu já tinha feito o exercício de desenhar um mancebo e esse foi feito a partir de chapas de 3 cm de espessura com recortes para pendurar roupas. Já o prato redondo tem um ligeiro desnível e uma madeira encaixada no meio que tira a conicidade da peça. Nesse caso, quis misturar a pedra portuguesa com o pau-ferro, madeira brasileira. Tudo foi feito em Portugal dois anos atrás. Tivemos a exposição na Casa de Vidro, em 2017, e agora a coleção veio para Basel. A maior parte do grupo trabalha com o design industrial e as propostas de caráter artesanal surpreenderam. As do Michael Anastassiades, apesar de parecerem singelas, têm uma sofisticação incrível. Ele misturou uma pedra na parte externa e outra na interna com tanta perfeição que parecem ter vindo de um único bloco.”

“Não sou muito fã de feira, tem gente demais e é um modo de observação que eu acho excessivo e com muito estímulo. As galerias de arte e design, porém, funcionam muito bem nessas feiras, é muito importante para elas participarem desse circuito. Já fui duas vezes na Art Basel Miami, na Flórida, e essa é a primeira vez no evento da Suíça. Circulei pelo piso das galerias vintage, no qual me chamaram a atenção as peças de Abraham Palatnik (expoente da arte cinética no Brasil) muito bem apresentadas no estande da carioca Mercado Moderno. A Fridman, de Nova York, especializada em design arte traz peças de impacto e também as dos anos 30, 40 e 50. Gostei também das peças do Estúdio Mumbai ligado a arquitetura, expostas numa galeria belga. Na Carpenters, vi os móveis dos Campana revestidos de pele de peixe. Na parte de instalações com os projetos conceituais sobre o meio ambiente, o da dupla do Mameluca se destaca, assim como as do arquiteto italiano Andrea Branzi sobre cidades.”

Fotos: Alex Galvão

Swarovski traz para seu estande na feira uma série de vasos, bandejas e castiçais de cristal produzidos em 3D pelo estúdio holandês Klarenbeek & Dros. Os formatos em blocos remetem às geleiras do Ártico que desde 1980 sofrem com o degelo, chamando a atenção para essa questão tão urgente aos dias atuais. A empresa mostra ainda a instalação “Sea-cret”, da artista Juju Wang, de Shangai, referência a água, sua plasticidade e seus efeitos.

Fotos: Divulgação

Norman FosterAnish KapoorArik LevyJean NouvelZaha Hadid Design, entre outros, mostram trabalhos de mármore e granito feitos em colaboração com a italiana Citco.

Fotos: James Harris

A galeria carioca Mercado Moderno levou para a Suíça os móveis assinados por Abraham Palatnik na exposição batizada Arte Viva. O artista e designer é ainda pouco conhecido do público europeu e traz sabor de novidade ao evento.