O escritório FGMF assina um dos quinze projetos arquitetônicos dedicados a cães em exposição na Japan House, em São Paulo. Conversamos com um dos sócios, Lourenço Gimenes, para saber como foi essa experiência

Bartolomeu, o cachorro de Lourenço Gimenes, na criação Casulo do FGMF Arquitetos. 

O trio do FGMF: Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz. 

Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz, sócios do paulistano FGMF Arquitetos, estão acostumados a pensar em grandes escalas para projetar edifícios e residências, que invariavelmente ganham destaque em revistas e sites do segmento. Neste mês, porém, eles demonstram que têm talento também para as escalas menores e numa área que surpreende: a de casinhas para cães, tema de exposição na Japan House, a partir de 19 de janeiro, curada pelo designer gráfico japonês Kenya Hara, diretor de arte da descolada loja Muji.

Antes de vir a São Paulo, “Architecture for Dogs: Arquitetura para Cães” passou pelo Japão, pela China e pelos Estados Unidos, apresentando projetos inspirados em especificidades de diferentes raças e assinados por importantes nomes da arquitetura contemporânea. Além dos japoneses: Sou Fujimoto, Shigeru Ban, Toyo Ito e Kengo Kuma, a mostra conta com a participação do escritório holandês MVRDV, do designer alemão Konstantin Grcic e, agora, do FGMF. Na entrevista abaixo, o arquiteto Lourenço Gimenes relata como foi participar dessa experiência.

Como aconteceu o convite?

A Japan House de São Paulo queria incluir uma casinha projetada por profissionais brasileiros e, como participamos do desenvolvimento do centro cultural ao lado de Kengo Kuma, acho que acabaram optando por nós, o que nos deixou bastante lisonjeados. Somos os primeiros arquitetos da América Latina a participar dessa exposição.

A proposta representou um desafio?

O desafio não é a casinha de cachorro, mas a discussão crítica entre a escala do objeto e a da arquitetura. O objeto abrigará um ser vivo, um espaço com escala intermediária, esse é o verdadeiro foco. Fizemos essa leitura e, se você analisar os projetos, verá que alguns são muito conceituais, outros, ensaios construtivos, como o do Kengo Kuma e do Shigeru Ban. O do Fujimoto tem essa conexão com o doméstico, pois pode virar prateleira.

Qual cachorro inspirou a criação de vocês?

Eles nos deram uma lista de dez raças diferentes para escolhermos. São sempre cachorros de porte pequeno ou médio. O primeiro da lista era um Yorkshire, raça do meu cachorro, o Bartolomeu. Ele serviu de modelo para nossas experimentações e estrelou também as fotografias do site. 

É uma espécie de mascote de vocês?

Sim, o Bartolomeu está comigo há quatro anos e vem com certa frequência ao escritório. Tem tapete e potes de comida por aqui e me segue por todos os cantos.

Como ele contribuiu para o projeto?

Ajudou nos testes de protótipos com relação ao tamanho e também na definição de como seria o espaço. Nossa observação ao comportamento dele foi constante: de como se abriga, como responde aos materiais e à luminosidade, entre outras coisas. O cliente humano nos passa sua rotina, seus desejos e suas percepções para a nova casa, já com cachorro, só nos resta tentar traduzir suas preferências a partir da observação.

Qual é o conceito do Casulo, nome dado ao projeto de vocês?

É um refúgio, que abraça e acolhe. O cachorro se sente protegido e confortável para entrar e deitar, pode ficar com a cabeça para fora ou para dentro, pois há duas aberturas de diferentes tamanhos, uma mais luminosa e outra mais escura. A cobertura sobre a estrutura metálica torna a casinha uma mesa lateral, escolhemos vidro, mas poderia ser de madeira ou de concreto.

E quanto aos materiais do casulo?

Testamos quatro: feltro, neoprene, tricô e papel-couro, que é uma estrutura mais grossa e firme, ficou muito bonita e é mais ventilada do que as outras.

E qual delas Bartolomeu gostou mais?

Não sei dizer (risos), ainda não conseguimos descobrir, mas para a Japan House escolhemos expor a de feltro.

Essa experiência traz algo de novo para o trabalho de vocês?

Acho que sim, começa com a abordagem da discussão entre escalas e também evidencia nosso desafio de sempre buscar novas soluções. Nossa profissão é a do erro, do processo, e, se o processo for consistente e legítimo, tudo bem, não precisa todo mundo gostar do projeto. Mais do que imprimir nossa assinatura, quisemos aproveitar a oportunidade de criar algo novo, nos despindo de preconceitos. No processo, a observação visual muda a forma de conceber e, a produção de um objeto requer muita prototipagem. Na arquitetura, você não faz protótipo, nossa preocupação aqui foi com a solda, o parafuso…. nossa equipe de design participou ativamente do processo.

A exposição propõe a criação de um banco de dados online, o que permite ao usuário o acesso a diagramas, imagens e vídeos das peças expostas para que sejam reproduzidas. O que você achou dessa iniciativa?

Muito bacana essa possibilidade de o usuário escolher o modelo que mais lhe convir. No nosso caso, ele pode fazer o casulo de neoprene, tricô, pelúcia… Empregamos também cordas de violão e foi um desafio calibrar a tensão das cordas e deixá-las estáveis para sustentar a parte interna. Compramos tarraxas de guitarra e funcionou maravilhosamente bem. O usuário poderá escolher onde colocar as cordas e como cruzá-las. Outra característica desse projeto é que ele dialoga com nossa arquitetura habitual, de espaços de transição com jardim e paisagem ampla. A caixa, que é um frame metálico, sustenta um ou dois casulos longitudinalmente ou transversalmente, e conta com espaço de transição, como um pergolado, onde o animal pode deitar sobre o piso para se refrescar. O público pode também compartilhar suas próprias propostas na plataforma por meio do link architecturefordogs.com. Essa iniciativa não é usual no nosso mercado.

Veja também a matéria publicada na Casa Vogue: https://casavogue.globo.com/Colunas/Casinha-Vogue/noticia/2019/01/mostra-sobre-arquitetura-para-caes-chega-japan-house-em-sao-paulo.html

Veja as demais casas assinadas por ícones da arquitetura e design mundiais. Fotos: Hiroshi Yoda.