Os arquitetos Mariana Távora e Fernando Dainese souberam aproveitar essa característica arquitetônica para criar ambientes fluidos e confortáveis

Disposto a aumentar a família, o casal trocou o apartamento de 80 m² por um de 300 m². Para essa decisão tão importante, contou com a ajuda da dupla do escritório Távora Dainese. Os profissionais não só planejaram a reforma e os interiores, como opinaram na escolha do imóvel, assegurando que, mesmo com espaços cheios de ângulo, o futuro apê teria jeito de casa, como sonhavam os clientes.

Fotos: Evelyn Müller

Como começa essa história?

Fernando: o proprietário nos pediu ajuda para escolher o imóvel. Visitamos vários antes de eles optarem por este na Vila Madalena. Opinamos sob o ponto de vista da arquitetura e sugerimos este por alguns fatores: fica numa rua arborizada e tranquila, e em um andar de onde se enxerga as copas das árvores. A planta era menos convidativa por ser toda recortada e cheia de ângulos, típica dos prédios dos anos 90.

Mariana: no início, isso pareceu um problema para eles, mas nos deu uma enorme oportunidade de mostrar que, se bem redesenhada, tiraríamos vantagem dessa característica. Sabíamos também que o casal encararia com tranquilidade uma grande reforma, não teria medo de demolir paredes.

É comum vocês orientarem clientes na compra do imóvel?   

Fernando: nem sempre acontece, mas sabemos que essa orientação faz diferença. Em imóveis que requerem reforma, conseguimos estimar o valor aproximado da obra, considerando sempre uma margem de erro. Isso é fundamental ao negociar a compra. Do ponto de vista projetual, pode-se ainda escolher a guerra que se quer travar, ou seja, o quanto se quer investir de tempo e dinheiro numa reforma. Na visita, já avaliamos como o apartamento pode ser transformado, qual será a melhor disposição para a mobília e como o cliente se adaptará nos espaços.

Mariana: outra questão é a personalização. Permite criar o ambiente e a demanda que o cliente deseja, pois, quando avaliamos o imóvel, estamos com o olhar voltado para as necessidades dele. Neste caso, ficou claro que as intervenções no apartamento eram essenciais para conquistar luz natural e espaço. A planta, além de recortada, era toda compartimentada, com confusa distribuição de ambientes. E cada banheiro tinha um tipo de acabamento. À primeira vista, não estimulava a compra.

Eles tinham desejos especiais?

Fernando: eles gostam de receber e ele, de cozinhar. Planejamos, então, uma ampla sala, com boa mesa de jantar, cozinha integrada, desenvolvemos tudo com eles. Conhecer a planta com antecedência nos ajudou na tomada de decisões e acelerou o processo, tornando-o bem objetivo.

Mariana: desde a reforma, já fizemos uma série de atualizações no apartamento. Revestimos a poltrona Mole, o sofá, trocamos o tapete e a mesa de jantar, o móvel atrás do sofá é recente. Os quartos das crianças também foram renovados. Eles não mudam nada sem chamar a gente e nos convidam a fazer essa curadoria.

Fotos: Evelyn Müller

E a cozinha?

Fernando: a cozinha era toda clara e de tons neutros. Descascamos a estrutura e a deixamos à mostra. Mariana fez pesquisa de revestimento e a cerâmica escolhida remete ao passado, deu mais vida ao espaço. Ajudou a dar esse ar de casa, é uma cozinha para ser usada. Incluímos ali mesa desenhada por nós com cadeiras de Jader Almeida.

Os espaços de receber são generosos…

Mariana: sim, eles podem acomodar os convidados também na varanda, e, para recepções mais formais, usar a sala de jantar, que fica isolada da cozinha quando se fecham as portas de correr.

Há bastante design brasileiro, não?

Mariana: sim. As cadeiras da sala de jantar são do Jader Almeida e de Sergio Rodrigues, a mesa do Zanini, há várias luminárias do Fernando Prado e da Cristiana Bertolucci. No quarto da filha, uma poltrona do Paulo Alves e, na sala, cerâmicas da Kimi Nii e poltronas do Carlos Motta em torno de uma mesa Noguchi, que é um clássico do design internacional, assim como o par de chaises do Charles Eames na lateral da lareira.

E a aquisição da poltrona Mole, de Sergio Rodrigues, eles já a desejavam?   

Mariana: ele comprou a ideia desde o início, ela menos; mas, a partir do momento que o móvel chegou na sala, virou o xodó da casa, é muito convidativa. Recentemente, trocamos o tecido por esse linho de tom coral para trazer mais cor à sala. Nós procuramos sempre usar o design nacional, gostamos do desenho, da linguagem, fala sobre a gente. Achamos importante prestigiar nossos profissionais.

Fernando: É claro que essas escolhas dependem das decisões do cliente, cada um terá seu conjunto personalizado. Neste caso, nossas sugestões foram muito bem aceitas, são clientes que gostam de arquitetura, de decoração e respeitam nosso trabalho.

Fotos: Evelyn Müller

O quarto do casal segue o projeto original e conservou o piso da área social e o mármore no banheiro. A marcenaria foi feita sob medida.

Fotos: Evelyn Müller

Com parede de escalada e tablado, o quarto do menino convida a brincar. O azul predomina em tecidos e na marcenaria.

Fotos: Evelyn Müller

Aos 7 anos, a filha trocou o quarto com casinha por um que se prolongará até a adolescência. Na bancada de estudo, há também nicho para organizar presilhas de cabelo e bijuterias. A poltrona em tecido de tom pastel é assinada pelo designer paulista Paulo Alves.