Fabricantes de móveis, utilitários e eletrodomésticos do país revelam os desafios impostos pela pandemia

Algumas estão paralisadas, outras trabalhando parcialmente. O isolamento social mudou a rotina da indústria e de seus funcionários em diferentes estados do país. O desafio agora é manter a equipe empregada e negociar os prazos de entrega, tentando prejudicar o mínimo possível o cliente. Sobre o futuro, há muita dúvida e incerteza, mas os cinco empresários ouvidos pela Olhares.News garantem que o importante agora é não estagnar e agir com responsabilidade e equilíbrio. Para eles, o pós-pandemia deve definir um novo consumidor: menos impulsivo e mais consciente.

Clovis Tramontina, presidente do Conselho de Administração da Tramontina, empresa com dez unidades fabris no Rio Grande do Sul, Recife e Belém

“Nestes mais de 100 anos de empresa, nunca passamos por algo parecido. Isso porque a pandemia afeta nosso principal ativo: as pessoas. A nossa prioridade sempre foi o cuidado com elas, sejam funcionários, consumidores, parceiros e todas as comunidades onde atuamos. Nosso Comitê Gestor de Crises se reúne semanalmente para novas definições. Desde 23 de março, estamos com unidades paralisadas e as áreas administrativas em home office. A partir da próxima semana, 13 de abril, as atividades fabris serão retomadas. Porém, não mediremos esforços nas ações de prevenção e cuidado com as pessoas, seguindo todas as orientações do Ministério da Saúde. Nenhum funcionário foi demitido.

As equipes – de acordo com os critérios legais e dentro das peculiaridades que cada função exige – estão divididas em grupos: em férias coletivas, em formato de flexibilização de horários e/ou home office. A empresa está muito atenta aos mais suscetíveis ao vírus: os de mais de 60 anos, gestantes ou os que têm algum problema de saúde. A decisão sobre a retomada das operações foi conduzida pela Direção e Conselho de Administração da Tramontina, em conjunto com as autoridades da saúde e do governo.

Apostamos nas medidas propostas como forma de manter nossas operações e garantir sustento de todas as famílias que estão ligadas à marca. Estamos concentrados em manter nossos centros logísticos em todo o Brasil, atuando de forma responsável, segura e organizada, com pequenos grupos de funcionários revezando em horários especiais para evitar o desabastecimento de produtos ao mercado. Nossos armazéns têm estoques suficientes para o mês de abril. A incerteza que permeia este momento é grande, mas a indústria tem capacidade de rever todos os processos, de forma a tornar suas atividades mais dinâmicas e produtivas, sem renunciar à inteligência e força humanas.”

Edson Busin, diretor de marketing da Unicasa Indústria de Móveis, Bento Gonçalves, RS

“Paralisamos 100% da fábrica e as áreas administrativas trabalham agora em home office. Embora algumas indústrias da região já tenham votado ao trabalho, a Unicasa permanece em isolamento social, em princípio, até 13 de abril. A rede de lojas também foi paralisada e deverá permanecer assim até 15 de abril. Nossa orientação obedece as regras da Organização Mundial da Saúde (OMS). A situação não é confortável para ninguém e, por isso, nosso RH tem oferecido atendimento psicológico online a quem precisa. Retomaremos as atividades de forma gradativa porque o momento ainda é preocupante e nos aproximamos do inverno. Realizaremos a vacinação contra H1N1 na própria empresa e estamos oferecendo orientação sobre os cuidados de assepsia e do uso adequado dos EPIs (equipamento de proteção individual).

O cenário passa a ser absolutamente diferente do que havíamos planejado. Aguardamos as medidas do governo e esperamos passar por esta crise com o mínimo de arranhões. É inegável que se o mercado retrair, afetará a todos. Nossas lojas se estruturaram para atendimento dos clientes, o que já estava em curso. Tão logo volte nossa produção, respeitaremos todos os acordos. Pode acontecer algum tipo de atraso, inclusive pela falta de matéria-prima. Mas atender o cliente será nossa prioridade.

Uma coisa é certa: depois disso tudo, haverá um novo consumidor. Acreditamos que o mundo passará a ressignificar a relação com o “eu”, com o círculo que vive, como família e amigos, e com o consumo. Decifrar esse “novo” será a grande tarefa das empresas que desejarem permanecer no mercado. É muito cedo para definirmos esse novo cliente, mas também acreditamos que a casa terá muito mais importância para as pessoas. Isso tem relação com bem-estar, trabalho e convívio social. Deve haver também uma relação mais séria com as marcas. As escolhas de consumo serão pautadas mais por necessidade e respeito do que por impulso. As empresas deverão se relacionar melhor com seus clientes, pois o consumo será muito mais consciente.”

Ricardo Saad, CEO da St. James, fabricante de peças utilitárias e decorativas de metal, São Paulo, SP

“Tenho vindo todos os dias à fábrica para me reunir com meu financeiro. Temos compromissos, pedidos feitos, 70 funcionários. Demos 15 dias de férias para boa parte da equipe e metade dela já voltou. Adotamos todas as precauções de higiene necessárias. Algumas pessoas estão trabalhando de casa. Hoje são apenas 15 pessoas na produção. Com relação às medidas adotadas pelo governo, todo dia é uma novidade. Estamos acompanhando as notícias para ver se poderemos mesmo reduzir a jornada ou suspender o contrato como foi proposto na medida provisória. Agora, surgiu a questão de negociar com os sindicatos. Cada hora tem uma nova decisão e o tempo está passando, os clientes cancelam pedido, não pagam o que foi comprado, e temos obrigações com nossos fornecedores.

É um momento tenso. A loja da St. James, no D&D Shopping, está fechada. Estamos ligando para os clientes, mas não há quem queira comprar. Lançamos uma campanha online de Páscoa e colocamos nosso estoque de faqueiros à disposição dos lojistas. Esse é o grosso do nosso negócio: vender para as lojas do Brasil. Muitas estão fechadas e seus donos com medo. Então, sugerimos que eles vendessem o faqueiro para seus clientes finais sem precisar comprá-los de nós, podendo oferecer diretamente a seus clientes, que ainda podem escolher o brinde que desejam ganhar. Alguns apostaram na ideia, outros estão paralisados sem conseguir agir.

O que mais tem acontecido é a suspensão temporária de pedidos. As lojas com e-commerce continuam solicitando mercadoria, mas bem menos do que nas condições normais. Hoje embarcou um pedido para a Suíça, feito na feira Ambiente, realizada em fevereiro na Alemanha. Para Dubai, despacharemos nos próximos dias, assim como para a Bolívia e o Peru. Só o cliente da Grécia cancelou. Para piorar, nosso Instagram foi hackeado há dez dias. Pura maldade, mas, nessa hora, é importante manter o equilíbrio emocional e não se desesperar. Tem gente mais otimista do que eu quanto à retomada das vendas. Não tenho essa expectativa, mas, se acontecer, será muito bom. Na minha opinião, essa retomada será lenta e gradual. Se você me perguntar: o que ficará dessa experiência? O ensinamento de que precisamos agir sem saber o amanhã. É difícil, eu sei, mas não podemos paralisar. Estamos trabalhando com a informação e as ferramentas do dia a dia. Não sei se estou acertando ou errando, mas, se ficasse parado, seria ainda pior.”

Tiago Nogueira, vice-diretor comercial e marketing da Lider, com fábrica de móveis em Carmo do Cajuru, MG

“Por motivo de responsabilidade social, encerramos nossas atividades em 19 de março e acho que fomos uma das primeiras fábricas a parar. Estamos olhando para dentro, para nossa cadeia de fornecedores e tentando buscar alternativas junto a eles. Estamos trabalhando também para fazer algo com nossos clientes: os arquitetos, os designers de interiores e os clientes finais. O momento agora é de união. Do ponto de vista da indústria, mesmo quando for permitido o retorno, aguardaremos as orientações governamentais. A retomada será feita com cautela.

Selecionamos o grupo que não é de risco e mudaremos os horários do refeitório. Se tínhamos 700 funcionários na escala, voltaremos com 350 em diferentes turnos. Serão 150 pessoas num espaço de 100 mil metros quadrados. Fizemos um plano de ação para todas as áreas da empresa: industrial, comercial, contabilidade, financeiro, marketing e vendas. Estamos em contato com quase 4 mil clientes com pedidos em aberto para saber quem quer receber, quem não quer e, eventualmente negociar, a data de entrega.

A equipe econômica do governo, nesse momento, foi brilhante ao decretar medidas para estancar um pouco do que será o sangramento da renda e de empregos, com a proposta de redução de jornada e pagamento de uma espécie de seguro desemprego. A Lider aproveitará essa oportunidade, pois não queremos demitir ninguém. Continuamos tomando uma série de medidas no nosso dia a dia, sempre com cautela, pensando no aqui e no agora, e na saúde da empresa. Sabemos que se ela estiver bem, todos sairão ganhando.”

Wilson Schuster, sócio diretor da Schuster Móveis e Design, com fábrica em Santo Cristo, RS

“Com a falta de matéria-prima e lojas revendedoras fechadas, a Schuster parou suas atividades por dez dias. Até 3 de abril, a produção seguiu normal com os devidos cuidados: conscientização, proteção e o uso de produtos de higiene: álcool gel, detergentes e álcool líquido em vários lugares. O uso de máscaras já é uma exigência nossa, mas a fizemos com maior rigor. Afastamos do grupo as pessoas de maior risco. Todos trabalham devidamente distanciados uns dos outros para seguirmos produzindo. Mas temos o outro lado: lojas fechadas, clientes finais com regras condominiais sem permissão de entrada de entregadores, regras diferentes quanto à permissão de produção de matérias-primas por parte de alguns estados. Isso tudo somado a temores dos clientes finais que retardaram as compras, tornando o cenário muito incerto e imprevisível. Não existe um modelo lógico de comportamento previsível do mercado, tudo é muito novo, tateamos no escuro. Queremos trabalhar com positividade e, para o retorno sólido comercialmente, estamos preparando algumas novidades de produto, para que deixem marcas positivas a uma sociedade que estará revendo seus valores e dará mais importância à vida, aos amigos, aos familiares. Espero sinceramente que este triste cenário venha para melhorar a humanidade.”